Brasil amplia negócios com China e União Europeia após tarifas americanas, reconfigurando fluxos comerciais.
As exportações brasileiras em fevereiro apresentaram um cenário de reconfiguração significativa, com destaque para o avanço expressivo dos negócios com a China e a União Europeia. Em contrapartida, os Estados Unidos, tradicional parceiro comercial, registraram queda em suas importações de produtos brasileiros, um reflexo das tarifas impostas pelo governo americano.
Os dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) apontam para uma mudança no protagonismo dos destinos das commodities nacionais. A China se consolida cada vez mais como o principal comprador, enquanto a Europa ganha força, impulsionada também pela iminente ratificação do acordo Mercosul-UE.
Essa nova dinâmica comercial, segundo especialistas, demonstra uma adaptação do mercado brasileiro às barreiras tarifárias impostas pelos EUA. A especialista em investimentos, Maressa Campos, ressalta que a variação nos dados de fevereiro não apenas reflete crescimento, mas também uma “mudança de peso” nos parceiros comerciais, com Europa e Ásia ganhando relevância.
China Lidera Crescimento com Demanda Robusta por Commodities
Em fevereiro, as exportações brasileiras para a China apresentaram um crescimento impressionante de 38,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando o montante de US$ 7,22 bilhões. Esse avanço foi impulsionado principalmente por um aumento de 35,3% no volume de produtos embarcados.
A demanda chinesa por produtos como soja, minério de ferro, petróleo e proteína animal tem sido o motor principal dessa expansão. Maressa Campos explica que a China não preencheu um vácuo, mas sim reforçou uma posição já sólida no comércio com o Brasil, sustentando a balança comercial nacional. O aumento observado reforça a importância estratégica da China para a economia brasileira.
União Europeia Amplia Importações com Potencial do Acordo Mercosul-UE
A União Europeia também demonstrou um forte aumento em suas importações do Brasil, com uma alta de 34,7%, totalizando US$ 4,2 bilhões em fevereiro. Esse crescimento resultou de uma combinação de maior volume de produtos enviados, que subiu 16,7%, e da valorização dos preços médios em 14,9%.
A expectativa é de que o comércio com a UE continue a crescer, especialmente após a recente aprovação do tratado de livre comércio Mercosul-UE pelo Senado brasileiro. Embora a ratificação ainda dependa do Parlamento Europeu e do Paraguai, o acordo promete criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
Campos sugere que o aumento nas exportações para a UE já pode estar sendo influenciado pela antecipação dos efeitos do acordo. “Acordos comerciais costumam produzir efeito antes mesmo de entrarem em vigor. Empresas antecipam contratos, reorganizam fornecedores e tomam decisões de compra com base no que está por vir”, afirma.
Tarifas Americanas Reduzem Vendas, Mas Nova Decisão Judicial Alivia Parcialmente
As exportações brasileiras para os Estados Unidos continuam em trajetória de queda, com retração de 20,3% em fevereiro, totalizando US$ 2,5 bilhões. A queda em janeiro foi ainda mais acentuada, com recuo de 26%.
Uma melhora observada em fevereiro pode estar relacionada à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou parte das tarifas impostas por Donald Trump, mantendo apenas uma taxa geral de 10%. No entanto, mesmo com essa redução, as barreiras ainda impactam o fluxo comercial.
Para Campos, a tarifa de 10% diminui os atritos, mas não elimina todas as barreiras, e outros mercados estão absorvendo o crescimento exportador com mais intensidade. As exportações para os EUA vêm registrando quedas consecutivas desde agosto de 2025, quando uma tarifa de 50% entrou em vigor.
Outros Mercados Ganham Espaço nas Exportações Brasileiras
Além da China e da União Europeia, outros mercados também registraram alta relevante nas exportações brasileiras em fevereiro. O Japão apresentou um aumento de 31,6%, alcançando US$ 487,3 milhões, e a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) registrou alta de 15,3%, somando US$ 1,9 bilhão.
Em contrapartida, as exportações para o Mercosul totalizaram US$ 1,56 bilhão, com uma queda de 19,5% na comparação anual, puxada principalmente pela retração nas vendas para a Argentina (-26,5%).