Flávio Bolsonaro em Israel: Uma Jogada Política com Raízes na Direita Radical Global

A recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Israel, onde vestiu um quipá e orou no Muro das Lamentações, tem sido interpretada como uma estratégia política multifacetada. Seguindo os passos do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador se insere em um movimento global da direita radical que adota um “filossemitismo estratégico”, uma afeição calculada pelo povo judeu.

Essa aproximação, segundo análise, contrasta com o antissemitismo histórico da extrema direita no século XX. No século XXI, o foco se deslocou para um novo inimigo: o imigrante árabe muçulmano. Nesse contexto, a aliança com o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu e o apoio a Israel em meio à guerra em Gaza ganham relevância.

A viagem de Flávio Bolsonaro o alinha a líderes mundiais da direita radical, como Marine Le Pen na França, Matteo Salvini na Itália e Viktor Orbán na Hungria. Esses líderes compartilham ideologias como o antiliberalismo, o conservadorismo cultural e o nacionalismo exacerbado, frequentemente utilizando o populismo como ferramenta. A informação é baseada em análise de fontes jornalísticas sobre o tema.

A Nova Extrema Direita e a Afeição a Israel

A mudança de postura da extrema direita em relação ao judaísmo é notável. Enquanto no passado o antissemitismo era uma marca registrada, hoje, figuras como Marine Le Pen, apesar do histórico de seu pai, Jean-Marie Le Pen, condenado por declarações antissemitas, buscam aproximação com a comunidade judaica. Le Pen, em entrevista à revista Valeurs actuelles em 2014, declarou que a Frente Nacional não era inimiga dos judeus franceses, mas sim um “escudo” contra o “fundamentalismo islâmico”.

Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria e referência para a direita radical global, também demonstra apoio a Israel. Essa postura se mantém mesmo após declarações do líder húngaro terem sido interpretadas como antissemitas, especialmente seus ataques ao bilionário judeu George Soros. Orbán e seu partido, o Fidesz, promoveram campanhas contra Soros, acusando-o de financiar a esquerda global e minar a soberania húngara.

As teorias conspiratórias contra George Soros revelam uma faceta do “filossemitismo” da direita radical: ele parece não contemplar todos os judeus. Judeus seculares, antissionistas ou de esquerda não parecem ser o foco dessa afeição.

Conexões Internacionais e o Eleitorado Brasileiro

Antes de palestrar na Conferência Anual de Combate ao Antissemitismo, Flávio Bolsonaro se reuniu com políticos de partidos de direita radical europeus, como Pedro dos Santos Frazão, de Portugal, e Jorge Buxadé, da Espanha. Ele também se encontrou com Axel Wahnish, embaixador da Argentina de Javier Milei em Israel, acompanhado por seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Essa viagem reforça os esforços de Flávio Bolsonaro em se conectar com a direita radical internacional, que incluem visitas anteriores a El Salvador e aos Estados Unidos. A viagem a Israel também serve para consolidar Flávio Bolsonaro como uma oposição clara à esquerda, que denuncia o que considera um “genocídio em Gaza”, e ao presidente Lula, que condena as ações de Netanyahu.

O senador tem ecoado acusações frequentes da direita radical, afirmando que o presidente Lula é antissemita. A estratégia de Flávio Bolsonaro parece mirar não o voto judaico, minoritário no Brasil, mas sim o eleitorado neopentecostal. Imagens como seu batismo no rio Jordão buscam reforçar esses laços.

O Sionismo Cristão e a Construção de um Passado Glorioso

A adoção de símbolos judaicos por alas evangélicas, como a estrela de Davi e o shofar, se alinha ao conceito de sionismo cristão. Essa crença fundamenta o direito divino do povo judeu de habitar a terra de Israel, essencial para a segunda vinda de Cristo. A adesão de Flávio a esses símbolos, comuns em manifestações bolsonaristas, visa atrair o eleitorado neopentecostal.

As referências aos reinos de Davi e Salomão, frequentes no discurso bolsonarista, também buscam oferecer ao eleitor um “passado de glória compartilhado”, associado à civilização judaico-cristã, que estaria sendo ameaçada pelas forças progressistas. “Você pertence a uma comunidade política que já foi de vencedores. A religião é um detalhe. Não é um discurso religioso. É um discurso de pertencimento a um lugar que tem que ser resgatado”, afirmou Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ, em entrevista à Folha em 2024.

Gherman ressalta que a questão do reino de Salomão não é meramente religiosa, mas sim “militar, política, expansionista”. Ele conclui que é um erro acreditar que se trata apenas de religião, quando, na verdade, trata-se de política.