Por que alguns lugares lutam para sair da Lista de Patrimônio da Humanidade da UNESCO
A Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO reconhece locais de ‘valor universal excepcional’, com potencial para catapultar destinos menos conhecidos para a fama mundial. No entanto, a crescente popularidade traz consigo desafios inesperados, levando algumas comunidades a desejar a remoção do prestigiado título.
Recentemente, a pequena vila de Vlkolínec, na Eslováquia, e a Área de Conservação de Ngorongoro, na Tanzânia, apresentaram pedidos para serem retiradas da lista. Esses casos evidenciam um dilema complexo: como equilibrar a preservação de locais importantes para a humanidade com as necessidades e o bem-estar das comunidades que ali vivem.
A busca por reconhecimento global, impulsionada em parte pelas redes sociais, tem transformado o turismo em um fator de pressão sem precedentes. Conforme aponta John H. Stubbs, especialista em preservação, o que se busca é um planejamento de conservação inteligente que considere todos os aspectos envolvidos, da economia à população local.
O Peso da Fama: Turismo Excessivo e Conflitos Locais
A designação de Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, desde sua criação em 1978, visa proteger locais de importância cultural e ambiental. Com 1.248 sítios em 170 países, a lista inclui desde maravilhas como Machu Picchu até vilarejos pitorescos como Vlkolínec, que em 1993 se tornou Patrimônio da Humanidade, atraindo mais de 100 mil visitantes anualmente.
Contudo, para os cerca de 20 moradores permanentes de Vlkolínec, o turismo em massa trouxe mais problemas do que benefícios, com o aumento da pressão sobre a infraestrutura e a vida local. Situação semelhante ocorre na Tanzânia, onde a Aliança Internacional de Solidariedade Maasai alega que políticas de conservação em Ngorongoro levaram ao deslocamento de comunidades pastoris de suas terras ancestrais.
Greg Richards, pesquisador de turismo cultural, compara a designação da UNESCO a um selo de qualidade que garante um aumento no número de visitantes. Ele ressalta que, embora a UNESCO possa desbloquear financiamento para conservação, como no caso do Sistema de Reservas da Barreira de Corais de Belize, o impacto no turismo é uma consequência quase certa.
A ‘Museificação’ de Comunidades Vivas
O foco histórico da UNESCO na preservação de estruturas físicas, como monumentos e sítios arqueológicos, tem se expandido para incluir comunidades vivas. No entanto, essa inclusão pode levar a um processo de ‘museificação’, onde locais se tornam mais voltados para visitantes do que para moradores.
Veneza, na Itália, Patrimônio da Humanidade desde 1987, é um exemplo clássico de turismo excessivo, levando ao êxodo de moradores. Em Lijiang, China, a Cidade Velha, designada em 1997, viu partes de seu centro transformadas em áreas comerciais, diluindo a vida local, segundo pesquisadores e residentes.
Em Marrakech, Marrocos, o aumento do turismo e do investimento estrangeiro na medina, também listada pela UNESCO, gerou debates sobre a valorização imobiliária e a gentrificação. Esses casos ilustram a tensão entre a necessidade de preservação e as demandas contemporâneas das comunidades, como moradia e infraestrutura.
Redes Sociais Aceleram a Pressão Turística
A ascensão das redes sociais intensificou drasticamente a pressão do turismo sobre os sítios do Patrimônio Mundial. Plataformas como Instagram e TikTok transformam a forma como as pessoas viajam, com cada vez mais turistas seguindo as experiências de outros em vez de guias tradicionais.
A UNESCO reconhece que o turismo mudou nos últimos 15 anos e agora incentiva os locais protegidos a desenvolverem planos de gestão de visitantes. O objetivo é preparar-se para o crescimento do turismo, reduzir a superlotação e proteger áreas sensíveis, buscando que o turismo apoie a conservação e o patrimônio.
Peter DeBrine, especialista em turismo sustentável da UNESCO, afirma que os sítios são ‘para todos, para toda a humanidade’, incentivando a visitação e a vivência desses locais. Essa abordagem reflete uma evolução na maneira como a organização enxerga o turismo, não apenas como um risco, mas também como uma oportunidade quando bem gerenciado.
O Desafio da UNESCO: Preservar Lugares, Não Comunidades
Apesar da crescente conscientização da UNESCO sobre o turismo excessivo, a organização enfrenta limitações em casos onde as queixas vêm dos próprios moradores, e não de danos diretos ao patrimônio. Atualmente, a UNESCO pode classificar locais como ’em perigo’ devido a conflitos, mudanças climáticas ou desenvolvimento descontrolado, mas não por causa do turismo que ajudaram a criar.
A UNESCO removeu apenas três locais de sua lista: o Santuário do Órix-da-Arábia (Omã, 2007), o Vale do Elba em Dresden (Alemanha, 2009) e a Cidade Marítima e Mercantil de Liverpool (Reino Unido, 2021). Em todos os casos, a questão central foi a conservação e não o impacto do turismo.
Embora os pedidos de retirada da lista chamem a atenção para os problemas do turismo excessivo, John H. Stubbs acredita que a solução real virá de um planejamento de conservação inteligente. Este planejamento deve considerar todos os fatores, desde a economia e a localização até a população local, reconhecendo que salvar um lugar não é o mesmo que salvar uma comunidade, e esta última tarefa é significativamente mais complexa.