Antoni Gaudí: 100 anos da morte do gênio da Sagrada Família, confundido com mendigo e esquecido
Há um século, em 10 de junho de 1926, Barcelona perdia um de seus maiores expoentes: Antoni Gaudí i Cornet. O arquiteto, cujas obras modernistas encantam o mundo, teve um fim trágico e irônico. Atropelado por um bonde na Gran Via de les Corts Catalanes, Gaudí foi inicialmente ignorado por transeuntes que o confundiram com um mendigo, devido às suas roupas simples e aspecto descuidado.
A falta de reconhecimento e a hesitação em prestar socorro atrasaram o atendimento ao arquiteto. Apenas após muita insistência e a intervenção de um guarda civil, Gaudí foi levado a um dispensário e, posteriormente, ao hospital de Santa Creu. Somente no dia seguinte, sua identidade foi confirmada pelo capelão da Sagrada Família, a obra que se tornaria seu legado eterno.
Essa triste história, marcada pela indiferença em relação a um dos maiores gênios de sua época, é lembrada hoje, no centenário de sua morte. Conforme informações divulgadas, o Papa Leão XIV celebrará uma missa na Basílica da Sagrada Família, em Barcelona, marcando a data de forma solene.
Um gênio incompreendido no fim da vida
Antoni Gaudí, já aos 73 anos, adotava um estilo de vida cada vez mais recluso e austero. Seus hábitos frugáis e vestimentas simples, que contribuíram para a confusão após o acidente, eram reflexo de sua profunda devoção religiosa. Ele caminhava diariamente em direção à igreja de San Felipe Neri, onde se encontrava com seu confessor, o padre Agustí Mas, e foi justamente em uma dessas caminhadas que o trágico evento ocorreu.
Após o atropelamento, Gaudí sofreu diversas fraturas e hemorragias. No hospital, sem documentos e apenas com um livro dos Evangelhos, um rosário e uma chave consigo, foi tratado como indigente. Ele agonizou por três dias, falecendo em 10 de junho de 1926, sem ter a chance de ver a conclusão de sua obra-prima.
O legado eterno da Sagrada Família
A notícia do acidente e da morte de Antoni Gaudí correu Barcelona, gerando comoção. Seu funeral foi acompanhado por uma multidão, culminando em um cortejo até o canteiro de obras da Sagrada Família, onde foi sepultado. Até hoje, seus restos mortais repousam na cripta do templo.
A Sagrada Família, que Gaudí dedicou os últimos 43 anos de sua vida, é um símbolo da arquitetura modernista catalã e um dos cartões-postais mais famosos da Europa. Sua construção, iniciada em 1883, ainda está em andamento, com previsão de término para 2032. A basílica foi consagrada em 2010 pelo Papa Bento XVI, que elogiou o gênio de Gaudí e sua capacidade de transformar a fé em pedra.
Reconhecimento póstumo e o caminho para a santidade
Antoni Gaudí, apelidado de “arquiteto de Deus” por sua fervorosa fé católica, teve suas virtudes heroicas reconhecidas pela Igreja Católica ao ser proclamado venerável. Este passo é crucial no processo de canonização, que pode levar à beatificação e, posteriormente, à santidade, caso milagres sejam comprovados.
Além da Sagrada Família, Gaudí deixou outras obras notáveis em Barcelona, como o Parque Güell, a Casa Milà e a Casa Batlló, muitas delas tombadas como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Sua visão única e sua profunda espiritualidade continuam a inspirar e a fascinar pessoas em todo o mundo, mesmo um século após sua partida.