O impacto eleitoral da economia está diminuindo? Entenda o fenômeno.
A máxima “é a economia, estúpido” (“it’s the economy, stupid”) sempre foi um mantra nas eleições, sugerindo que o desempenho econômico é o principal motor do voto. No entanto, novas análises indicam que essa relação pode estar se enfraquecendo, com a percepção individual e a lealdade partidária ganhando mais espaço na avaliação dos eleitores.
Pesquisas recentes, como as citadas por Nunes e Traumann em 2024, revelam que a visão sobre a economia frequentemente se alinha com a preferência política. Em 2022, por exemplo, a maioria dos eleitores de Lula acreditava que a economia havia piorado, enquanto uma minoria entre os apoiadores de Bolsonaro compartilhava dessa visão. Esse fenômeno, conhecido como “partisan cheerleading” ou “efeito torcida partidária”, sugere que as avaliações econômicas são, em parte, um reflexo de lealdade política.
Essa contaminação da percepção pela identidade partidária não é nova, mas sua intensidade parece ter aumentado. O chamado “efeito halo”, onde a visão positiva sobre um partido ou político influencia a avaliação de seu desempenho em outras áreas, como a economia, explica parte desse viés. Conforme a fonte, quanto mais forte o partidarismo, maior a distorção na avaliação econômica. Conforme informação divulgada, essa tendência tem sido observada globalmente, com destaque para os Estados Unidos. A correlação entre indicadores econômicos reais e a aprovação de governo tem diminuído, sugerindo que o comportamento da economia pode ter um peso relativo menor nas decisões eleitorais futuras.
O aumento do ‘efeito torcida’ nas avaliações econômicas
O “efeito torcida partidária” descreve como eleitores sinalizam lealdade política ao avaliarem o desempenho econômico. Em vez de um julgamento puramente objetivo, as respostas em pesquisas são influenciadas pela identificação com um partido. Isso leva simpatizantes a avaliarem de forma mais positiva os governos com os quais se alinham politicamente, mesmo que os indicadores econômicos não sejam favoráveis.
Evidências apontam um aumento significativo desse efeito, especialmente nos Estados Unidos. A nuance é que esse crescimento é mais acentuado nas avaliações sobre a economia nacional (sociotrópicas) do que na percepção das finanças pessoais (egotrópicas). A diferença na percepção da melhora econômica entre democratas e republicanos, por exemplo, quase dobrou entre 1999 e 2020, atingindo impressionantes 73% durante o primeiro mandato de Trump, segundo pesquisas.
Menor importância da economia real, maior peso do partidarismo
A consequência direta desse fenômeno é que o desempenho real da economia pode perder relevância na decisão do voto. A responsabilização por mau desempenho econômico ou corrupção tende a se enfraquecer. Isso se soma ao viés de disponibilidade, onde informações mais recentes têm maior peso, mas agora com um filtro partidário mais forte.
Nos EUA, dados indicam que o desempenho econômico nos três anos anteriores a uma eleição presidencial tem tido pouca influência no voto. Apenas o último semestre ou ano parece ser decisivo, e mesmo assim, sob a ótica da “torcida partidária”. O eleitor, em muitos casos, “olha pelo retrovisor apenas nos últimos metros da corrida”, com a percepção moldada pela lealdade ao seu grupo político.
O papel dos independentes e a arquitetura da escolha eleitoral
Um fator crucial a ser considerado é o crescimento do grupo de eleitores independentes, que não possuem a “torcida partidária” e representam uma fatia cada vez maior do eleitorado em países como os EUA. Esses eleitores são mais voláteis e podem ser decisivos em eleições futuras. A análise do comportamento eleitoral precisa focar cada vez mais nesse segmento.
Além disso, é fundamental lembrar que a “arquitetura da escolha” importa. Mesmo um candidato com avaliações econômicas negativas pode ser eleito se a estrutura da disputa eleitoral for favorável, ou se seus oponentes não conseguirem capitalizar as insatisfações. O contexto geral da eleição, as estratégias de campanha e a dinâmica política podem superar o impacto direto da economia.