UFJF e UFMG se retratam pelo uso de cadáveres de pacientes psiquiátricos em aulas de saúde, buscando reparações históricas e ações de memória.

Duas importantes universidades federais brasileiras, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgaram notas públicas se retratando por terem utilizado, no passado, cadáveres de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos para aulas de saúde, especialmente em cursos de anatomia.

As manifestações, que ocorreram em momentos distintos, evidenciam um reconhecimento da **luta antimanicomial** e um esforço para confrontar práticas desumanizadoras que marcaram a história da saúde mental no Brasil. Ambas as instituições buscam, com esses pedidos de desculpas, iniciar um processo de reparação simbólica e promover a conscientização sobre o respeito à dignidade humana.

As retratações surgem em um contexto de crescente debate sobre a memória e os legados de instituições como o Hospital Colônia de Barbacena, conhecido por suas condições precárias e pelo alto número de mortes. Conforme relatado no livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex, cerca de 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino, e agora as universidades reconhecem sua parte nesse doloroso capítulo.

UFJF: Conivência e Compromisso com a Memória

A UFJF, em sua nota de retratação, iniciou reconhecendo sua **conivência em um dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública** do país. A universidade destacou como a segregação social, sob o pretexto de segurança coletiva, levou ao isolamento e a diversas formas de violência contra pessoas que não se enquadravam em determinados padrões sociais.

O comunicado da UFJF ressaltou que a associação da “loucura” à incapacidade e periculosidade contribuiu para a desumanização e a consolidação de estigmas. O gênero, a classe social, a orientação sexual e a raça eram utilizados como critérios para hierarquizar e marginalizar indivíduos.

A instituição mencionou o **Hospital Colônia de Barbacena** como um local de grande contribuição para a marginalização e invisibilização de pacientes, onde se estima que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no século XX. A UFJF informou que seu Instituto de Ciências Biológicas (ICB) recebeu 169 corpos de internos entre 1962 e 1971 para aulas de anatomia.

Como forma de reparação, a UFJF comprometeu-se a lançar iniciativas como **ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental**, além de buscar apoio para a criação de um memorial e organizar pesquisas documentais sobre suas conexões com o Hospital de Barbacena. A universidade enfatizou que, desde 2010, seu programa de Doação Voluntária de Corpos “Sempre Vivo” garante que todos os corpos recebidos sejam provenientes de doações voluntárias, em conformidade com a lei e o respeito à dignidade humana.

UFMG: Reconhecimento e Ações de Restauração

A UFMG, por sua vez, também formalizou um pedido de desculpas público por seus vínculos com o Hospital Colônia de Barbacena. A universidade declarou que o reconhecimento de sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas é acompanhado por **ações de memória em conjunto com grupos da luta antimanicomial**.

Entre as medidas anunciadas pela UFMG estão a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina. A universidade reconheceu que muitas pessoas faleceram no hospital e tiveram seus corpos destinados a instituições de ensino para viabilizar aulas de anatomia.

A UFMG também destacou que, desde 1999, possui um programa de doação de corpos para estudo de anatomia, que funciona de forma **voluntária e consentida**, sendo uma prática legal e ética alinhada a padrões internacionais.

Loucura, Cultura e a Importância da Memória

O debate sobre a saúde mental no Brasil é vasto e permeia diversas obras culturais. Um exemplo notório é o conto “O Alienista”, de Machado de Assis, que explora as complexidades do conceito de loucura. O Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, também é um importante centro de memória, destacando o trabalho revolucionário da psiquiatra Nise da Silveira, que aliou cuidados humanizados e arte no tratamento de transtornos mentais.

Esses movimentos das universidades refletem uma necessidade de **confrontar o passado e construir um futuro mais ético e humanizado** na área da saúde, reconhecendo os erros cometidos e aprendendo com eles para garantir que tais práticas não se repitam. A luta antimanicomial, que busca o fim do modelo hospitalocêntrico e a promoção de tratamentos mais inclusivos e respeitosos, ganha força com esses reconhecimentos institucionais.