A Serra Verde, mineradora de terras-raras em Goiás vendida por US$ 2,8 bilhões, nunca pertenceu ao Brasil, apesar de o governo e aliados usarem o caso para defender a soberania nacional. A operação, que transferiu o controle de grupos estrangeiros para outra empresa americana, contou com o conhecimento e a inação do governo federal em diversas oportunidades, conforme apurado pela reportagem.

A recente venda da mineradora de terras-raras Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), para a norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões em abril de 2026, tornou-se um ponto central no discurso governamental sobre a defesa do Brasil contra a exploração estrangeira. No entanto, a alegação de que o governo de Goiás “entregou” uma empresa estratégica brasileira ao capital norte-americano ignora um fato crucial: a mineradora nunca foi, de fato, uma empresa brasileira.

A exploração de minerais críticos em solo brasileiro é um tema de alta relevância, especialmente em um contexto de busca por diversificação de fontes e redução da dependência da China, que domina o processamento e refino de terras-raras. O governo federal, apesar de ter ciência e participação em todo o processo de venda da Serra Verde, optou por não intervir, levantando questionamentos sobre a real estratégia nacional para o setor.

A negociação envolveu a transferência de capital estrangeiro entre grupos internacionais, sem qualquer participação acionária brasileira desde a constituição da empresa em 2010. A reportagem detalha as diversas etapas em que o governo federal teve a oportunidade de atuar, mas permaneceu inerte, permitindo que a operação se concretizasse nos moldes atuais. As informações são baseadas em reportagem publicada em abril de 2026.

Serra Verde: Uma Empresa de Capital Integralmente Estrangeiro

A mineradora Serra Verde foi constituída em 2010 com capital proveniente exclusivamente de fundos estrangeiros: Denham Capital (Boston), Energy & Minerals Group (Houston) e Vision Blue Resources (Reino Unido). Não há registro de fundadores brasileiros ou de participação de fundos nacionais na sua formação. Portanto, a operação de abril de 2026 representou apenas uma troca de controle entre grupos estrangeiros, e não a venda de uma empresa brasileira para o exterior.

O Papel do Governo Federal e a Inação Estratégica

Apesar de o governo e aliados tentarem associar a venda a uma falha do governo de Goiás, a competência para autorizar a venda de mineradoras e a transferência de titularidade de lavras é federal. O subsolo brasileiro pertence à União, conforme a Constituição Federal. A concessão de lavra e a análise de capital estrangeiro em ativos estratégicos são de responsabilidade federal, e o governo federal, ciente de todas as etapas, optou por não interferir.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sob o governo Lula, chegou a aprovar empréstimos para o empreendimento, mesmo sendo controlado por estrangeiros. Isso demonstra que a participação federal no processo não é nova e que a inação se estende por diferentes governos.

Três Chances Perdidas para o Brasil Regular Terras-Raras

A matéria aponta que o Brasil teve três oportunidades cruciais para regular o uso e a exportação de suas terras-raras, mas falhou em todas elas. Essa inação atravessa os governos Lula 2, Dilma 1, Dilma 2, Temer, Bolsonaro e o atual governo Lula 3.

A primeira chance foi durante o governo Lula 2, quando a concessão de lavra da Serra Verde foi outorgada sem condicionantes. Por 14 anos, a mineradora exportou seu minério bruto para a Shenghe Resources, uma empresa parcialmente estatal chinesa. Durante os governos de Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, não houve objeção à entrega de matéria-prima de baixo valor agregado à China. O Partido dos Trabalhadores (PT) só passou a se manifestar sobre o assunto quando os insumos deixaram de ser exportados para o mercado chinês.

A segunda oportunidade ocorreu em agosto de 2025, quando a agência americana DFC (US Development Finance Corporation) aprovou um empréstimo substancial à Serra Verde. Com esse financiamento, a mineradora encerrou unilateralmente seus contratos com a China, antecipando o fim em sete anos. A operação, divulgada pelo Financial Times, ocorreu mesmo após o presidente Lula ter discutido o tema com o presidente dos EUA, Donald Trump, em outubro de 2025. Ainda assim, órgãos como Itamaraty, ANM, MME e Casa Civil não interferiram.

A terceira e última chance se deu em abril de 2026, quando o Financial Times revelou que o empréstimo da DFC continha cláusulas de exclusividade comercial, direcionando o minério para os Estados Unidos e países alinhados, com exclusão explícita da China. Vinte dias depois, a USA Rare Earth comprou a Serra Verde, estabelecendo um contrato de fornecimento exclusivo de 15 anos a uma empresa americana. Mesmo com o Itamaraty confirmando que “equipes técnicas de Brasília e Washington estão tratando do assunto”, a intervenção federal não ocorreu.

O Novo Projeto de Lei e o Cenário Geopolítico

Em resposta à pressão e ao cenário geopolítico, o governo Lula enviou ao Congresso um projeto de lei que regulamenta o setor de minerais críticos, permitindo ao governo vetar a venda de mineradoras para empresas estrangeiras e oferecendo incentivos fiscais para empresas que processarem materiais no Brasil. Essa medida surge após a consolidação da venda da Serra Verde para os Estados Unidos.

Para os Estados Unidos, a aquisição da Serra Verde representa a busca por uma fonte alternativa de minerais raros, reduzindo a dependência da China. O Brasil, por sua vez, busca evitar sanções comerciais por parte dos EUA, que têm reclamado de práticas comerciais desleais.