Atleta denuncia 14 anos de abusos por professor de jiu-jítsu Melqui Galvão
A atleta Brenda Larissa Alves da Silva veio a público para relatar 14 anos de abusos sexuais, físicos e psicológicos sofridos nas mãos do professor de jiu-jítsu Melquisedeque de Lima Galvão Ferreira, o Melqui Galvão. Ele foi preso em Manaus no dia 28 de abril, após investigações que apontam envolvimento com pelo menos três vítimas, entre elas uma adolescente de 17 anos.
Segundo Brenda, os crimes começaram quando ela tinha apenas 12 anos, logo após ingressar em um projeto esportivo na capital amazonense, onde Melqui Galvão atuava. A prisão temporária foi decretada pela Justiça após investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, que reuniu relatos de diversas vítimas.
Conforme divulgado pelo g1, Melqui Galvão teria se aproximado de Brenda ao notar sua dedicação nos treinos e a vulnerabilidade de sua família. Ele ofereceu apoio financeiro, auxílio nos estudos e nas competições, prometendo uma carreira de sucesso no esporte. Em troca, passou a exigir obediência, dando início aos abusos.
O início dos abusos e a teia de controle
O professor custeava despesas essenciais da atleta, como alimentação, kimonos e inscrições em campeonatos, além de buscar patrocínios. No entanto, os abusos se tornaram rotina e se estenderam por anos. Brenda relatou que, aos 16 anos, descobriu que outras meninas do projeto também eram vítimas.
“Eu achava que só eu vivia aquilo, mas não era. Tinha outras passando pelo mesmo”, contou. Na época, após surgirem comentários sobre os abusos, o projeto foi encerrado. Para despistar as suspeitas, Melqui Galvão teria inventado um namoro entre Brenda e outro aluno, uma estratégia para “que ninguém descobrisse o que estava acontecendo”, segundo a atleta.
Projeto nos EUA e a persistência do controle
Posteriormente, o treinador criou um novo projeto nos Estados Unidos e convidou alguns atletas, incluindo Brenda, para participar. Ela aceitou com o intuito de mudar de país e continuar os treinos, mas seu visto foi negado, permitindo apenas a viagem para disputar o Mundial. Ao retornar ao Brasil, Brenda passou a morar em São Paulo.
Durante a pandemia de Covid-19, ao voltar para Manaus, Brenda sentiu a pressão psicológica do treinador aumentar para que permanecesse sob sua influência. Ela só deixou a capital amazonense quando ele inaugurou outra unidade de sua academia em Jundiaí, São Paulo. Brenda manteve-se como aluna até 2023, quando o rompimento profissional ocorreu.
Denúncias e o medo de expor a verdade
Mesmo após o fim da relação profissional e pessoal, o contato persistiu. Brenda afirma que Melqui Galvão tentou interferir em sua carreira, pedindo o fim de relacionamentos e oferecendo vantagens para que ela voltasse a treiná-lo. Ela também relata agressões físicas e humilhações ao longo dos anos.
A atleta revelou que sua própria irmã também foi vítima de abuso sexual pelo mesmo homem. Brenda já registrou denúncias em Manaus e decidiu tornar o caso público para encorajar outras vítimas a procurarem ajuda. “Foram 14 anos de muito medo”, desabafou.
A busca por justiça e o apoio de outras vítimas
A indignação com a própria história e com o que sua irmã passou, além dos relatos de outras meninas, motivaram Brenda a falar. “E, ao ouvir os relatos de outras meninas, isso me deu força para falar: se elas não conseguem, eu vou conseguir”, relatou. Seu objetivo é encorajar outras vítimas a denunciarem, mesmo anonimamente.
Conforme a investigação, o caso veio à tona após uma adolescente de 17 anos denunciar atos libidinosos não consentidos durante uma competição internacional. Ela foi ouvida pelas autoridades, assim como familiares. A prisão temporária foi expedida após denúncias reunidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM).
Gravação e novas vítimas surgem
De acordo com a polícia, os denunciantes apresentaram uma gravação na qual o investigado admite indiretamente o ocorrido e tenta evitar que o caso seja levado adiante, oferecendo compensação financeira. Durante a apuração, outras duas possíveis vítimas foram identificadas em diferentes estados, relatando episódios semelhantes. Em um dos casos, a vítima tinha 12 anos na época dos fatos.
Melqui Galvão foi preso em Manaus após se apresentar às autoridades locais, em cumprimento de mandado expedido pela Justiça de São Paulo. Foram cumpridos também três mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ele em Jundiaí. O caso tem gerado forte repercussão na comunidade do jiu-jítsu. A Polícia Civil segue com as investigações para apurar a extensão dos crimes e identificar possíveis novas vítimas.
Em nota, a Polícia Civil do Amazonas informou que as investigações continuam em Manaus, com depoimentos presenciais e virtuais. O suspeito está detido na Delegacia-Geral, aguardando decisão judicial para transferência a um presídio em São Paulo. A defesa de Melqui Galvão não foi localizada até o momento.