Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, Voz Essencial na Luta Contra a Ditadura, Falecido Aos 85 Anos

O Brasil lamenta a perda de Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista que se tornou um símbolo da resistência democrática e da imprensa livre durante o regime militar. Com 85 anos, Pereira faleceu neste sábado (2), no Rio de Janeiro, deixando um legado de coragem e luta pela liberdade de expressão.

Nascido em Exu, Pernambuco, em 1940, Pereira trilhou um caminho singular até o jornalismo. Formado em Física e com estudos em Engenharia no ITA, sua jornada o levou a escrever para um jornal estudantil, onde as sementes de sua futura atuação foram plantadas. Sua trajetória, marcada por perseguições e desafios, o consolidou como uma figura central na defesa dos valores democráticos.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) o descreveu como “um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira e figura central na resistência democrática durante a ditadura militar”. O presidente Lula também lamentou a morte, destacando sua persistência em lutar pela democracia e pela liberdade de imprensa, mesmo após ser perseguido e preso. Conforme informação divulgada pela ABI e pelo presidente Lula, a causa da morte não foi informada.

Do ITA ao Jornalismo: Uma Trajetória de Resistência

A atuação de Raimundo Rodrigues Pereira no jornalismo estudantil no ITA, entre 1960 e 1964, logo chamou a atenção. Em 1964, ano do golpe militar, seus textos repercutiram negativamente, levando-o a ser alvo de perseguição política. Ele foi expulso do ITA e preso pelo Dops paulista, passando dois meses na Base Aérea de Santos.

Após sua soltura, sem diploma e emprego, Pereira lecionou matemática. Um convite de um aluno o direcionou para revistas técnicas, abrindo as portas para o jornalismo profissional. Sua passagem pela Folha da Tarde, em 1967, e sua participação na fundação da revista Veja, em 1968, foram marcos importantes em sua carreira.

Denunciando a Tortura e Fortalecendo a Imprensa Alternativa

Um dos episódios mais marcantes da atuação de Pereira foi a coordenação da equipe da revista Veja na produção de uma das primeiras reportagens sobre a tortura praticada pela ditadura militar. A edição com a palavra “Torturas” na capa foi um ato de coragem que chocou o país e denunciou as atrocidades do regime. O livro “Contracorrente” detalha este e outros momentos de sua vida.

Pereira também atuou em veículos como a revista Realidade, consolidando sua posição como um jornalista engajado. Sua participação nos jornais Opinião e Movimento, no final dos anos 1970, o colocou no centro da imprensa de resistência à ditadura.

O Legado do Jornal Movimento e a Luta Contínua

O jornal Movimento, que circulou entre 1975 e 1981, sob censura prévia e dificuldades financeiras, é descrito pelo Memorial da Resistência como “um dos mais importantes jornais de resistência do país”. A publicação contou com a colaboração de nomes como Audálio Dantas, Chico Buarque e Fernando Henrique Cardoso.

O Movimento foi o último jornal a deixar de sofrer censura prévia, enfrentando proibições, como a citação de nomes como o de Vladmir Herzog. O jornal sobreviveu graças ao financiamento de grupos da frente ampla contra o regime militar. Mesmo sem nunca ter sido filiado a partido político, Pereira manteve-se próximo ao PC do B e ao PT.

Após a redemocratização, Raimundo Rodrigues Pereira continuou ativo, cobrindo ciência e política. Nos anos 2000, fundou a revista Retrato do Brasil, focada em investigações sociais. Seus últimos trabalhos de destaque incluíram investigações sobre o banqueiro Daniel Dantas e o escândalo do mensalão.

Reconhecimento e Homenagens

Em 2013, sua carreira foi coroada com o prêmio especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, sendo apresentado como “o maior nome da imprensa alternativa brasileira”. Seus pais, comerciantes, mudaram-se para São Paulo nos anos 1960. Pereira viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, casado com a socióloga Sizue Imanishi, falecida em 2020, e deixa quatro filhas.