Noruega: O paradoxo verde que lucra com a instabilidade energética mundial

A Noruega ostenta um título de país ecologicamente avançado, com 98% de sua eletricidade proveniente de fontes renováveis e uma frota crescente de veículos elétricos. No entanto, essa imagem de sustentabilidade contrasta fortemente com sua posição como um dos maiores exportadores globais de petróleo e gás natural.

Essa dualidade, conhecida como o “paradoxo norueguês”, tem se intensificado com conflitos globais, como a guerra no Oriente Médio e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Esses eventos impulsionaram os preços dos combustíveis fósseis, gerando lucros inesperados para o Estado norueguês.

Conforme informações divulgadas pela BBC News Mundo, essa situação gera um debate acirrado entre ambientalistas, que clamam por um fim mais rápido à exploração de petróleo, e o setor energético, que defende sua importância econômica e os empregos gerados. A complexidade do “paradoxo norueguês” se aprofunda a cada nova crise energética global.

A Fatura da Paz e o Bolso do Estado

A Noruega, um dos países mais desenvolvidos do mundo segundo o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, tem no setor de energia a sua principal fonte de riqueza. As exportações de petróleo e gás representam mais de 60% do total de produtos vendidos para o exterior, contribuindo com mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O Estado norueguês detém participação majoritária na Equinor, a principal operadora da plataforma continental do país, e direciona a maior parte dos lucros para o seu renomado fundo soberano, o “Fundo do Petróleo”. No final de 2025, este fundo detinha ativos estimados em US$ 1,9 trilhão, o que equivale a cerca de US$ 350 mil por cidadão.

A recente escalada de tensões no Oriente Médio, com o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, resultou em um aumento de US$ 5 bilhões nas receitas do Estado norueguês. A bolsa de valores de Oslo também registrou recordes, impulsionada por empresas do setor de energia, evidenciando como a instabilidade global se traduz em ganhos financeiros diretos para o país.

O “Mal Necessário” para a Europa

A Noruega se tornou um fornecedor crucial de energia para a Europa, especialmente após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Atualmente, o país fornece cerca de 30% do gás e 15% do petróleo consumidos no continente, com 90% de suas exportações destinadas à Europa.

Essa dependência europeia fez com que até mesmo os partidos mais “verdes” na Noruega admitissem que o gás norueguês se tornou um “mal necessário” para garantir a segurança energética do continente. A analista Thina Saltvedt, da empresa financeira Nordea, destaca que a “dura realidade é que, quando o mundo está em chamas, o dinheiro flui para o nosso orçamento estatal”, como citado pela NRK.

Aposta no Futuro, Ignorando o Legado

Apesar de suas vastas reservas de petróleo, a Noruega investiu pesadamente em infraestrutura limpa, impulsionada por políticas como o imposto sobre carbono criado em 1991 e incentivos para veículos elétricos a partir de 2005. Em 2017, o Parlamento aprovou a Lei do Clima com a meta de reduzir as emissões em 50% até 2030.

Contudo, o cenário internacional atual parece ter freado esse ímpeto. O governo do primeiro-ministro Jonas Gahr Støre anunciou a oferta de 57 novas licenças de exploração, reafirmando o compromisso com o aumento da produção para suprir a demanda europeia. Støre defende o “desenvolvimento” da indústria em vez de um plano de “fases de saída”.

Frode Alfheim, do sindicato Industri Energi, ressalta a importância social do setor, que gera mais de 200 mil empregos diretos, argumentando que “não é o momento de deixar a Europa sem fornecimento”. A analista Saltvedt, no entanto, adverte: “Cada vez mais pessoas se dão conta de que há um pôr do sol no horizonte. Mas será doloroso.”