Copa América 2024: Um Pesadelo Financeiro para Torcedores Brasileiros
A expectativa para a Copa América, que será sediada em parte nos Estados Unidos, México e Canadá, está se transformando em frustração para muitos torcedores brasileiros. Apesar da proximidade geográfica em relação a sedes anteriores como Catar e Rússia, os custos para acompanhar os jogos se tornaram proibitivos, levando muitos a desistirem da viagem.
O alto valor de ingressos, a complexidade e o custo para obtenção de vistos, além de um transporte público que pode custar centenas de reais, criam uma barreira financeira significativa. A situação tem gerado indignação, com muitos brasileiros se sentindo excluídos da celebração do futebol.
Fernanda Zaguis, consultora do Movimento Verde e Amarelo, que organiza viagens para Copas desde 2008, relata que o aumento expressivo dos gastos inviabiliza a participação de famílias. “Quando é uma pessoa sozinha, ela se vira, vai no amor e fica no sofá de alguém. Mas quando é para quatro pessoas, a gente viu que muita gente não vai conseguir ir porque o custo aumentou muito”, afirma.
Transporte Público: Um Novo Custo Inesperado
Uma das novidades que mais revolta os torcedores é a ausência de transporte público gratuito para os estádios, uma comodidade oferecida em edições anteriores como 2022 e 2018. Agora, os deslocamentos representam um gasto considerável no planejamento da viagem.
Em Boston, por exemplo, o trajeto de trem até o Estádio Gillette, em Foxborough, pode custar cerca de US$ 80 (aproximadamente R$ 400). O ônibus Express, exclusivo para portadores de ingresso, eleva esse valor para US$ 95 (cerca de R$ 475) ida e volta. Em Nova York, a viagem de Manhattan ao MetLife Stadium tem um custo estimado de US$ 100 (R$ 500) para o trajeto completo.
“Está todo mundo revoltado. Acho que vai ser até mais caro do que no Catar, que era um país caro, mas a gente não tinha que ficar mudando de lugar. Não tinha voos internos e economizamos nisso”, lamenta Zaguis, comparando os custos com a Copa do Mundo de 2022.
Ingressos nas Alturas e a Crítica à FIFA
Os preços dos ingressos são outro ponto de grande insatisfação. Informações apontam que ingressos para a final, em 19 de julho, podem custar a partir de US$ 11 mil (R$ 54 mil) na plataforma oficial da FIFA, com valores que chegam a impressionantes US$ 2,3 milhões (R$ 11,5 milhões) para os assentos mais exclusivos.
Pim Verschuuren, especialista em gestão do esporte, explica que a FIFA adotou um sistema de preços dinâmicos com o objetivo de aumentar seus lucros. “É verdade que essas tarifas excessivas permitem financiar o futebol, mas também financiam a própria FIFA, onde temos problemas antigos de governança. O dinheiro infelizmente não vai todo para os praticantes de futebol e a todos os que se envolvem com o esporte”, constata.
Vistos e Imigração: Um Obstáculo Adicional
A entrada nos Estados Unidos também se tornou um fator de preocupação, especialmente para torcedores de países em desenvolvimento. Embora o Brasil não esteja na lista de 47 países (a maioria africana) que exigem uma caução de US$ 5 mil a US$ 10 mil (R$ 25 mil a R$ 50 mil) para contornar restrições de entrada, o custo para obter o visto americano já é alto.
O processo para tirar o visto custa US$ 435 (R$ 2,1 mil), e muitos torcedores brasileiros tiveram seus pedidos recusados. Essa incerteza e o alto custo do visto somam-se aos outros fatores que afastam os torcedores.
Pressão e Ameaças de Greve
Diante desse cenário, o maior sindicato de trabalhadores de estádios de Los Angeles já exigiu garantias da FIFA de que todos os torcedores com ingressos poderão cruzar as fronteiras americanas, ameaçando entrar em greve caso contrário. A situação expõe um modelo econômico da FIFA que, segundo Verschuuren, “depende de os países anfitriões administrarem todos os aspectos de segurança e hospitalidade, enquanto as receitas vão diretamente para os cofres da FIFA”.
A Organização dos Torcedores Europeus (FSE) já entrou com uma queixa contra a FIFA em março, denunciando os preços “exorbitantes” e um procedimento de venda de ingressos considerado “opaco e desleal”. A combinação de altos custos, complexidade burocrática e incertezas na imigração está impactando negativamente a experiência dos torcedores na Copa América 2024.