Pastores evangélicos defendem nomeação de Jorge Messias para o STF, enquanto parlamentares resistem. A maioria dos religiosos sem mandato apoia a indicação, ressaltando a importância de um evangélico na corte majoritariamente católica.
Lideranças evangélicas têm manifestado apoio à nomeação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo elas, a resistência à indicação parte principalmente de religiosos que possuem mandatos parlamentares. A chegada de um novo evangélico ao tribunal, que atualmente conta com apenas um ministro da fé, André Mendonça, é vista como positiva por muitos líderes.
A defesa da prerrogativa do presidente Lula em fazer a escolha é um ponto comum entre os apoiadores, que também destacam as qualidades e a trajetória religiosa de Messias. A sabatina de Messias no Senado está marcada para esta quarta-feira (29). Se aprovado, ele se tornará o segundo evangélico na corte, ao lado de André Mendonça.
A indicação, no entanto, ainda enfrenta críticas na bancada evangélica, com parlamentares como Sóstentes Cavalcante (PL-RJ) e Marco Feliciano (PL-SP) já tendo se posicionado contra. A Folha consultou os dez ministros atuais do STF em novembro, e apenas Mendonça se identificou como evangélico. Outros se declararam católicos, judeus ou cristãos com formação católica, com dois ministros não respondendo à reportagem.
Silas Malafaia e outros líderes expressam apoio, apesar de críticas pontuais
Mesmo o pastor Silas Malafaia, presidente da ADVEC e aliado de Jair Bolsonaro, que critica Messias e o chama de “esquerdopata gospel”, reconhece a prerrogativa presidencial. “Se é prerrogativa de Bolsonaro indicar Kassio [Nunes Marques] e André Mendonça, é prerrogativa de Lula [indicar Messias]. Isso é um direito, é uma prerrogativa do presidente indicar”, afirmou Malafaia à Folha.
O apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo, considera a indicação “excelente”, acreditando que Messias possui “nossos valores” e é “uma pessoa cristã e temente a Deus”. O apóstolo César Augusto, fundador da Igreja Fonte da Vida, destaca a profissão de fé de Messias em Cristo e na Bíblia como credenciais fundamentais, afirmando que “Todos que eu conheço basicamente apoiam essa indicação”.
Robson Rodovalho elogia competência, mas aponta ressalvas ideológicas
O bispo Robson Rodovalho, fundador da Igreja Sara Nossa Terra, elogia Messias como um “excelente advogado, competente” e “um cristão muito comprometido”. No entanto, Rodovalho aponta ressalvas quanto à adesão de Messias a “uma ideologia à esquerda, diferente de praticamente todo o nosso segmento” e a um parecer da AGU contra uma norma do CFM que vetava o aborto em alguns casos.
Para Rodovalho, essas posições se deram por demandas do cargo, não por convicção pessoal. Ele considera a escolha de Messias “bom e justo” pela falta de representatividade evangélica na corte e reforça que, fora do Congresso, lideranças evangélicas apoiam a indicação. Ele atribui a oposição dos parlamentares ao exercício de seus mandatos.
Especialistas apontam divisão no segmento evangélico e motivações políticas
Teófilo Hayashi, pastor da Zion, vê a indicação como um reflexo do cenário político atual, onde é preciso identificar o “menos ruim”. Luis Gustavo Teixeira, professor de ciência política da Unipampa, explica que parte do segmento evangélico está entusiasmada com a ampliação da representatividade, enquanto outro setor, mais conservador e alinhado ao bolsonarismo, vê a indicação como negativa.
Teixeira sugere que a oposição mais forte à nomeação de Jorge Messias ao STF parte de “lideranças religiosas portadoras de mandato e bastante vinculadas ao bolsonarismo”, questionando se a resistência não é mais política do que baseada em interesses religiosos amplos fora do Congresso. A diversidade de opiniões reflete o cenário complexo e as diferentes visões dentro da comunidade evangélica brasileira.