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Política

O fantasma do plenário: vereador afastado pela Justiça e de tornozeleira eletrônica tem presença registrada na Câmara Municipal de Manaus

O fantasma do plenário: vereador afastado pela Justiça e de tornozeleira eletrônica tem presença registrada na Câmara Municipal de Manaus

A Câmara Municipal de Manaus (CMM) parece operar em uma dimensão onde decisões judiciais são tratadas como meras sugestões. O vereador Rosinaldo Bual, que está expressamente proibido pela Justiça de frequentar o Legislativo e cumpre medidas cautelares com uso de tornozeleira eletrônica, continua “participando” das atividades parlamentares. Documentos oficiais revelam que o político teve sua presença computada remotamente em sessões realizadas entre 2 e 11 de março, em um flagrante desrespeito ao seu afastamento formal de 120 dias.

O registro de ponto de um parlamentar legalmente impedido de atuar expõe o nível de complacência e as falhas de controle dentro da Casa Legislativa, que permite a um investigado manter laços funcionais como se nada tivesse acontecido.

O escândalo da extorsão e a fortuna no cofre

Para entender o tamanho do absurdo, é preciso resgatar o motivo do afastamento. Bual foi preso em outubro de 2025 durante uma operação do Ministério Público do Amazonas (MPAM). Ele é apontado como o operador de um esquema de extorsão contra seus próprios funcionários, uma prática conhecida como “rachadinha”. As investigações indicam que mais de 100 pessoas passaram pelo seu gabinete e eram intimidadas a devolver metade de seus salários via Pix ou em dinheiro vivo.

A materialidade do esquema impressionou os investigadores. Durante as buscas, agentes encontraram três cofres recheados com R$ 390 mil em espécie, além de cheques que ultrapassavam a marca de R$ 500 mil e vários passaportes. O vereador responde por lavagem de dinheiro, associação criminosa e uso de funcionários fantasmas. Em dezembro, um habeas corpus substituiu a prisão por medidas cautelares, impondo o uso da tornozeleira eletrônica, a proibição de contato com testemunhas e o bloqueio de R$ 2,5 milhões de seus bens para futuro ressarcimento aos cofres públicos.

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O silêncio cúmplice e as costas viradas para a sociedade

O registro de presenças virtuais de Bual não é o único sintoma de uma Câmara que protege os seus. Para a sociedade civil, a atitude da CMM beira o deboche. O Comitê Amazonas de Combate à Corrupção tentou, desde o início do escândalo, forçar o Legislativo a fazer o mínimo: abrir um processo ético.

Inácio Borges, membro do comitê, relatou em entrevista que a entidade protocolou pedidos para que a Câmara apurasse a óbvia quebra de decoro parlamentar, mas o pedido foi sumariamente engavetado. Nas palavras de Borges, o Legislativo municipal simplesmente “deu as costas para o requerimento e para a sociedade”.

A lentidão que alimenta a indignação

O descaso institucional cria um ambiente de impunidade. O comitê também cobra respostas mais contundentes do Judiciário e do Ministério Público, apontando que a manutenção da situação atual compromete a representatividade política da capital.

Enquanto o processo avança a passos lentos e as instituições falham em dar uma resposta definitiva, o eleitor manauara é obrigado a assistir a um espetáculo lamentável: um vereador afastado, acusado de desviar dinheiro de servidores e monitorado eletronicamente, que ainda consegue, de alguma forma misteriosa, assinar a lista de presença no trabalho.

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