A desconfiança do consumidor na compra de medicamentos online é alta, mas o cenário regulatório está em mudança.
Sete em cada dez brasileiros demonstram receio ao considerar a compra de medicamentos pela internet. A principal preocupação gira em torno da possibilidade de adquirir produtos falsificados, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de procedência desconhecida. Essa apreensão é reforçada pela percepção de que as plataformas de venda online são as principais responsáveis pela oferta desses itens irregulares.
Essa desconfiança, evidenciada por uma pesquisa realizada pelo Instituto QualiBest, levanta um alerta importante sobre a segurança e a confiabilidade do comércio eletrônico de fármacos no país. Apesar de 95% dos brasileiros já terem realizado compras online, o medo de experiências negativas com medicamentos é palpável, especialmente pela dificuldade em saber a quem recorrer em caso de problemas.
Diante desse cenário, a Anvisa tem trabalhado para estabelecer regras claras que garantam a segurança do consumidor. Recentemente, a agência revogou medidas que proibiam a comercialização em plataformas digitais, abrindo caminho para que farmácias e drogarias licenciadas utilizem esses canais para logística e entrega, mas ainda dependem de regulamentação específica. A pesquisa foi encomendada pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) e ouviu 2.024 pessoas responsáveis por compras de medicamentos.
Principais medos dos consumidores ao comprar remédios online
O receio de adquirir medicamentos pela internet é multifacetado. Além do temor de falsificação, que assombra 69% dos entrevistados, outros riscos preocupam os consumidores. Cerca de 59% temem receber produtos vencidos ou que foram armazenados de forma inadequada, o que compromete sua eficácia e segurança. Outros 54% citam o risco de comprar itens que não possuem registro na Anvisa.
Para a maioria dos consumidores, a vinculação da venda digital de medicamentos a uma farmácia ou drogaria autorizada é vista como essencial. Essa percepção é compartilhada por 82% dos entrevistados, que acreditam que os fármacos não devem ser tratados como mercadorias comuns em plataformas digitais, como apontam os dados da pesquisa QualiBest para a Abrafarma.
Anvisa avança na regulamentação da venda de medicamentos online
Em agosto, a Anvisa deu um passo importante ao revogar proibições que impediam a venda e propaganda de medicamentos em plataformas como iFood, Rappi, Mercado Livre e outras. No entanto, a agência esclarece que essa decisão não significa autorização automática para a venda nesses canais. A Lei nº 15.357/2026 permite que farmácias licenciadas contratem plataformas digitais para fins de logística e entrega, desde que cumpram a regulamentação sanitária.
A implementação dessas novas regras ainda depende de regulamentação específica da Anvisa, conforme destacou o CEO da Abrafarma, Ségio Menna Barreto. Ele enfatiza que a compra online de medicamentos deve ser acompanhada de regras claras, responsabilização e supervisão profissional, indo além da simples conveniência do canal de venda. A Abrafarma defende que qualquer novo modelo de comércio deve preservar integralmente as regras sanitárias e as salvaguardas para a proteção da saúde pública.
O que dizem os órgãos de fiscalização e conselhos
O Conselho Federal de Farmácia (CFF) ressalta que a entrada das plataformas não autoriza a venda aleatória de medicamentos. O que se prevê é a utilização dessas plataformas pelas farmácias para sua operação, após a regulamentação pela Anvisa. O CFF acompanhará de perto esse processo regulatório.
Silvio Romero, diretor jurídico do Procon-RJ, explica que farmácias e plataformas de venda online são corresponsáveis por eventuais prejuízos aos consumidores. Ele alerta que, enquanto a regulamentação da Anvisa não for finalizada, apenas farmácias autorizadas podem realizar a venda por plataformas digitais. O Procon-RJ aguarda as novas condições da Anvisa para garantir a qualidade dos produtos.
Romero também aconselha os consumidores a ficarem atentos a preços muito abaixo do mercado, que podem ser um indício de desconfiança. Guardar todos os documentos da compra, como nota fiscal e comprovantes, é fundamental para garantir direitos em caso de problemas, como a venda de produtos vencidos ou não autorizados, que são infrações ao Código de Defesa do Consumidor.
O consumidor digital e a busca por segurança
A pesquisa revela que, apesar do receio com medicamentos, o consumidor brasileiro é engajado no comércio eletrônico. 95% já realizaram compras online e nove em cada dez avaliam a segurança do site antes de comprar, focando na credibilidade do vendedor e na experiência de outros clientes. Mesmo assim, 69% já enfrentaram problemas como produtos diferentes do anunciado, atrasos ou golpes.
A presença de um farmacêutico na compra de medicamentos aumenta a confiança para 78% dos entrevistados. Além disso, 52% consideram que comprar em uma plataforma conhecida gera uma percepção de maior segurança. No entanto, 56% expressam dificuldade em saber a quem recorrer caso surjam problemas com medicamentos adquiridos online, reforçando a necessidade de clareza e segurança no processo.