Violência Vicária: O que é e como se manifesta no Brasil? Entenda o caso que chocou Itumbiara.

Um trágico evento em Itumbiara, no interior de Goiás, reacendeu o debate sobre a **violência vicária**, uma forma de agressão que atinge mulheres de maneira indireta e devastadora. O caso, que envolveu o secretário de Governo da prefeitura, Thales Machado, que atirou contra seus dois filhos e tirou a própria vida, expôs a gravidade e a complexidade dessa modalidade de violência.

A violência vicária ocorre quando um agressor, geralmente o ex-parceiro, utiliza pessoas próximas à mulher, como filhos, para infligir dor e punição psicológica. O objetivo é atingir a vítima principal, causando-lhe o máximo de sofrimento possível através de quem ela mais ama. Este tipo de crime, embora muitas vezes invisibilizado, é mais comum do que se imagina no Brasil.

A secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, explicou que, na maioria dos casos, crianças e adolescentes são usados como instrumentos de dor, pois representam o maior vínculo afetivo da mãe. O ato extremo em Itumbiara, onde o pai matou os filhos, é um exemplo claro de como essa violência busca **penalizar a mulher** de forma cruel e irreversível. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, o agressor, antes de cometer o ato, postou em redes sociais uma carta alegando traição e crise conjugal, construindo uma narrativa para culpar a ex-companheira.

O Ciclo de Manipulação e Culpa na Violência Vicária

Estela Bezerra ressalta a **manipulação** presente na violência vicária. O agressor não apenas comete o crime, mas também constrói uma narrativa para se colocar como vítima e **responsabilizar a mulher** pelo ocorrido. Essa estratégia visa inverter a lógica, jogando sobre a vítima a culpa pela tragédia, algo que se perpetua na sociedade devido ao **machismo estrutural**.

A violência vicária se manifesta de diversas formas, desde ameaças sutis envolvendo os filhos até atos extremos como sequestro, afastamento forçado da convivência e manipulação emocional. O objetivo é sempre o mesmo: **causar dor e sofrimento à mulher** por meio daqueles que ela mais ama. O Instituto Maria da Penha reforça que essa prática é uma forma de violência de gênero que atinge mulheres e que **não se trata de conflito familiar**, mas sim de uma grave violação de direitos humanos.

A Necessidade de Nomear e Combater a Violência Vicária

Para o Instituto Maria da Penha, **nomear a violência é o primeiro passo para combatê-la**. A organização enfatiza que o Brasil reconheceu oficialmente a violência vicária como violência de gênero, estabelecendo diretrizes para a atuação do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente. A **informação de qualidade** é vista como uma ferramenta crucial de proteção, capacitando a sociedade a identificar e a prevenir esses crimes.

A Defensoria Pública Estadual de Goiás (DPE-GO) também se manifestou sobre o caso, reforçando que atos de abuso e violência, como os ocorridos em Itumbiara, são crimes. A DPE-GO destaca que a **responsabilidade é sempre de quem comete a violência**, e que a culpabilização da mulher, mesmo quando vítima, é um reflexo das desigualdades de gênero que perpetuam ciclos de violência. A campanha “Ela Não tem Culpa” buscou justamente desmistificar essa culpabilização indevida.

O Impacto Profundo e a Cultura Machista no Brasil

A violência vicária, segundo especialistas, está intrinsecamente ligada a uma **cultura machista** presente no Brasil e no mundo. Essa cultura gera uma forte assimetria de gênero, onde a violência se torna um instrumento para manter as mulheres em um lugar de subalternidade e medo. A falta de representatividade, a desigualdade econômica e a perpetuação de estereótipos de gênero contribuem para a **naturalização e invisibilização** dessa forma de agressão.

O impacto no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes que vivenciam a violência vicária é profundo e duradouro. O Instituto Maria da Penha alerta que a **manipulação emocional e o sofrimento silencioso** de mulheres e crianças precisam ser combatidos com políticas públicas eficazes e um debate social mais qualificado. É fundamental que a sociedade compreenda que a violência vicária é uma escolha do agressor e que a mulher **não tem culpa** pela tragédia.