Desvendando Fake News: A Verdadeira História por Trás do Vídeo de Liberação na Venezuela

Uma publicação que circula intensamente nas redes sociais afirma que a Venezuela libertou mais de 800 presos políticos, atendendo a uma exigência de Donald Trump. O vídeo anexo à postagem mostra um momento emocionante de reencontros e abraços, com uma legenda em inglês que reforça a ideia de libertação de prisioneiros políticos.

Contudo, a informação é enganosa. Embora o vídeo seja real e não uma criação de inteligência artificial, ele retrata a soltura de manifestantes que foram detidos após protestos contra a reeleição de Nicolás Maduro em julho de 2024. Essa liberação ocorreu cerca de um ano e dois meses antes de um suposto ataque americano a Caracas e da deposição de Maduro, eventos que não condizem com a narrativa apresentada.

A publicação viralizou no mesmo dia em que Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, anunciou que o governo libertaria unilateralmente um número significativo de prisioneiros e estrangeiros, em meio à crescente pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos. A alegação inicial de uma soltura em massa de opositores, no entanto, foi questionada por organizações de direitos humanos.

A Liberação de Manifestantes Pós-Eleitorais

A investigação realizada por meio da plataforma InVID e busca reversa no Google Lens identificou a origem do vídeo. As imagens, na verdade, foram publicadas em novembro de 2024 e mostram a libertação de mais de 100 presos políticos. Estes indivíduos haviam sido detidos por participarem de protestos contra a controversa vitória de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais de 2024.

O cenário e os personagens presentes no vídeo viral são os mesmos encontrados em gravações originais e reportagens confiáveis. Um vídeo publicado no canal do YouTube do veículo jornalístico Canal 26, datado de 17 de novembro de 2024, comprova a veracidade da cena, mas com o contexto correto: a soltura de detidos após as manifestações eleitorais.

Contestação da Eleição e Protestos em 2024

As eleições presidenciais venezuelanas de 28 de julho de 2024 resultaram na reeleição de Nicolás Maduro, em um pleito contestado por observadores e organismos internacionais. A falta de divulgação completa da contagem de votos pela autoridade eleitoral venezuelana gerou uma onda de manifestações em todo o país. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) indicou que cerca de 2,4 mil pessoas foram presas por participarem dessas mobilizações, e 25 mortes foram registradas, a maioria por ferimentos de bala.

Pressão Internacional e Liberações Questionadas

A promessa de libertação de opositores, anunciada por Jorge Rodríguez, ocorreu em um contexto de forte pressão dos Estados Unidos. Entre os libertados mencionados estavam a ativista espanhola Rocío San Miguel, o ex-candidato presidencial Enrique Márquez e Rafael Tudares, genro de Edmundo González. No entanto, a ONG Comitê pela Liberdade dos Presos Políticos da Venezuela (CLIPPVE) denunciou que a soltura não foi plenamente concretizada, verificável ou transparente, levantando dúvidas sobre a real dimensão da medida.

Contexto Temporal e Falsa Conexão com Trump

É crucial destacar que os eventos retratados no vídeo ocorreram em novembro de 2024, bem antes de um hipotético ataque americano à Caracas ou da deposição de Maduro, e das declarações de cooperação da presidente Celia Rodriguez com Washington. Portanto, a alegação de que a Venezuela cumpriu uma exigência de Trump ao soltar 800 presos políticos é factualmente incorreta e descontextualizada, configurando-se como uma disseminação de desinformação.