Venezuela em Transformação: O Impacto da Captura de Maduro e as Novas Diretrizes
Caracas vivenciou uma madrugada de 3 de janeiro de 2026 marcada por explosões e sobrevoos militares. O que se confirmou horas depois foi a notícia de um ataque em larga escala dos Estados Unidos à Venezuela, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Donald Trump, presidente americano à época, anunciou a operação e o transporte do casal para Nova York, onde aguardam julgamento por acusações de narcotráfico e narcoterrorismo.
A vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu como presidente em exercício, liderando um governo que, segundo a BBC, tem implementado mudanças antes impensáveis. Estas transformações, muitas delas anunciadas previamente pelos EUA, sinalizam um novo capítulo para a Venezuela, governada por Maduro por mais de uma década. Tais eventos, até poucas semanas antes da captura, pareciam distantes da realidade venezuelana.
A BBC detalha quatro mudanças significativas que ocorreram na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro. As decisões, embora apresentadas como unilaterais pelo governo de Delcy Rodríguez, frequentemente ecoam diretrizes estabelecidas por Washington. Este cenário complexo levanta questões sobre a soberania do país e o futuro de suas relações internacionais.
Libertação de Opositores e a Nova Lei de Anistia
Uma das primeiras medidas do governo de Delcy Rodríguez foi a libertação de opositores políticos, líderes sindicais, defensores de direitos humanos, jornalistas e manifestantes detidos. A decisão foi comunicada como um “gesto unilateral” para “consolidar a paz”, conforme o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. Mais de 600 pessoas teriam deixado as prisões, embora grupos de direitos humanos contestem o número exato, confirmando 344 libertações de “presos políticos”.
Em 30 de janeiro, Delcy Rodríguez anunciou a intenção de promover uma “lei de anistia geral”, abrangendo o período de 1999 até o presente, com o objetivo de “curar as feridas deixadas pelos confrontos políticos”. Paralelamente, foi anunciada a intenção de fechar o centro de detenção Helicoide, classificado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e pela ONU como “centro de tortura”.
Essas ações contrastam radicalmente com declarações anteriores de Maduro e outros membros do governo chavista, que prometiam prisões e rejeitavam anistias. A mudança de postura ocorre em um contexto onde Trump havia celebrado a libertação de presos políticos venezuelanos.
Reforma do Setor Petrolífero e Acordos com os EUA
Apesar de ameaças anteriores de cortar o fornecimento de petróleo para os Estados Unidos, a Venezuela, sob o novo governo, aceitou fornecer até 50 milhões de barris de petróleo a preços de mercado. Trump afirmou que os fundos seriam “controlados por mim para garantir que seja utilizado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. A estatal PDVSA confirmou negociações para a venda de volumes de petróleo.
O governo americano também solicitou investimentos de pelo menos US$ 100 bilhões para aumentar a produção venezuelana. No entanto, empresas como a Exxon Mobil expressaram reticência devido à insegurança jurídica. Para atrair investimentos, Jorge Rodríguez anunciou uma revisão do ordenamento jurídico e a reforma da Lei de Hidrocarbonetos, revertendo parcialmente a política de estatização do setor, implementada em 2007.
A reforma, segundo Jorge Rodríguez, visa transformar as reservas petrolíferas “em escolas e hospitais”. Contudo, setores chavistas criticaram a medida, com o ex-ministro Andrés Izarra afirmando que a Venezuela “deixou de ser dona do seu petróleo” no dia 29 de janeiro de 2026, perdendo o controle sobre a extração, venda e preços.
Impacto Econômico e a Volatilidade do Bolívar
A incerteza após a operação militar americana afetou severamente a moeda venezuelana. Em janeiro, o bolívar perdeu quase 22% de seu valor frente ao dólar no mercado oficial. No mercado paralelo, o dólar chegou a ultrapassar 800 bolívares, mas recuou para pouco mais de 400. Um economista, que preferiu não ser identificado, atribuiu a queda inicial à redução da oferta de divisas e ao medo de um caos maior.
O governo anunciou a injeção de US$ 300 milhões no mercado de câmbio, provenientes da venda de petróleo, o que parece ter reduzido a diferença entre as cotações. Contudo, o especialista alertou que a estabilidade dependerá do fluxo contínuo de divisas. Apesar da redução da diferença cambial, os preços para os consumidores venezuelanos não diminuíram, com relatos de aumento no custo de itens básicos como ovos.
A inflação na Venezuela fechou 2025 em 548%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). A situação econômica continua desafiadora em um país que historicamente importa cerca de 60% do que consome.
Restabelecimento de Relações Diplomáticas e Críticas ao Novo Governo
O governo de Delcy Rodríguez tem buscado restabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos, interrompidas há quase sete anos. A visita da diplomata americana Laura F. Dogu a Caracas para reabrir a Embaixada dos EUA, fechada desde 2019, ocorreu após uma visita do diretor da CIA, John Ratcliffe. A presidente em exercício defendeu sua estratégia como forma de lidar com as “consequências da agressão e do sequestro do presidente”.
No entanto, setores do governo questionam essa abordagem. O ex-vice-presidente Elías Jaua denunciou que a Venezuela está sob “ocupação militar”, com diretrizes impostas pela potência ocupante para garantir o fornecimento de energia. Delcy Rodríguez, por sua vez, defendeu o direito da Venezuela de manter relações com países como Cuba, Irã, Rússia e China, e reclamou da interferência americana.
Analistas políticos, como Carmen Beatriz Fernández, apontam que a posição de Delcy Rodríguez depende do apoio militar dos EUA, e que sua estratégia visa ganhar legitimidade popular através de melhorias econômicas. Ángel Oropeza descreve o projeto do governo interino como de “estabilização autoritária”, com uma abertura rápida na economia, mas lenta na política. Gabriela Ramírez alertou para o risco de nova intervenção americana caso uma transição pacífica com eleições democráticas não ocorra, ecoando ameaças anteriores de Trump.