Vale do Javari sob Cerco: Narcotráfico e Crimes Ambientais Ameaçam Povos Indígenas Quatro Anos Após Assassinatos de Bruno e Dom
Quatro anos após os brutal assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o Vale do Javari, no Amazonas, permanece um epicentro de disputas violentas. A região, vital para a preservação ambiental e para a sobrevivência de povos originários, continua sob a forte influência de atividades ilícitas.
Narcotráfico, pesca ilegal e invasões de áreas protegidas formam uma complexa rede criminosa que desafia os esforços de fiscalização e segurança. A situação expõe a vulnerabilidade de quem atua na linha de frente para proteger o território e suas comunidades.
Lideranças locais denunciam o desamparo enfrentado pelos servidores e indígenas que se dedicam a defender a Amazônia, em meio a um cenário de intimidação e violência constante. Conforme informações divulgadas pelo g1, a situação atual no Vale do Javari reflete um desafio persistente para o Estado brasileiro.
Economia Ilegal Interligada: A Teia que Ameaça o Vale do Javari
Um estudo internacional publicado na revista científica Nature Sustainability detalha como diferentes economias ilegais se conectam no Vale do Javari, uma terra indígena de extrema importância ambiental e cultural. Pesquisadores e lideranças indígenas da região colaboraram para mapear essa intrincada relação.
A pesquisa demonstra que crimes ambientais, como a extração ilegal de madeira e o garimpo, estão intrinsecamente ligados ao financiamento do narcotráfico. Essas atividades ilícitas, segundo a pesquisadora Livia Laureto, são viabilizadas por meio do escoamento de produtos do crime pelas rotas fluviais que ligam o Brasil a países vizinhos.
Essa rede criminosa financia embarcações, combustíveis, armas e a logística necessária para manter operações ilegais. Laureto enfatiza a necessidade de ir além do combate aos executores diretos, como pescadores e garimpeiros, mirando nos financiadores e nas estruturas comerciais que conferem uma aparência de legalidade aos produtos ilícitos.
A Luta na Linha de Frente: Povos Indígenas e a Vigilância Territorial
Diante da insuficiência da fiscalização estatal, a resposta para conter as invasões e atividades ilegais muitas vezes parte dos próprios povos originários. A Equipe de Vigilância da Univaja (EVU) atua na linha de frente do monitoramento territorial, suprindo um vácuo deixado pela fiscalização oficial.
Orlando Possuelo, indigenista e coordenador da EVU, destaca que a falta de respaldo e reconhecimento oficial do Estado à Univaja aumenta a vulnerabilidade dos vigilantes indígenas. Ele explica que atacar um vigilante indígena, que atua por conta própria, é mais fácil do que atacar um funcionário do Estado com aparato legal e estrutura de apoio.
A Univaja, principal entidade representativa dos povos indígenas do Vale do Javari, opera como uma organização independente. A EVU conta com seis equipes e cerca de 16 indígenas por embarcação, operando em rodízios de 30 dias com apoio de rádio e internet satelital. Contudo, eles não possuem poder de polícia nem porte de armas.
Pressão e Ameaças Constantes: O Impacto nos Povos Originários
O Vale do Javari abriga uma grande diversidade de povos, incluindo aqueles em isolamento voluntário e de contato recente, como os Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina, além dos Korubo e Tsohom-Djapá. A região é um santuário de biodiversidade e cultura, mas está sob constante ameaça.
Relatos apontam para episódios de intimidação e violência. Um caso emblemático ocorreu no primeiro semestre deste ano, quando um indígena em trânsito dentro da reserva foi capturado e torturado por invasores. Ele foi amarrado e acorrentado em sua própria canoa e solto rio abaixo.
A pressão sobre o Vale do Javari também atinge povos de contato recente. Há relatos de manipulação de grupos vulneráveis, como os Korubo, para que deixem suas terras tradicionais. Essa tática visa minar os argumentos socioambientais que justificam a demarcação da área.
Grilagem e Desmatamento: O Uso Fraudulento do Cadastro Ambiental Rural
O estudo publicado na Nature também revela o uso fraudulento do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como um dos principais vetores da grilagem de terras nas bordas do Vale do Javari. Criminosos utilizam o CAR, que é autodeclaratório, como um “falso título de propriedade” para tentar legitimar a ocupação de terras públicas.
Entre 2017 e 2022, 64% do desmatamento registrado em um raio de 200 quilômetros do Vale do Javari ocorreu em áreas com registros de CAR. Mais de 154 mil hectares de vegetação nativa foram derrubados nesse período.
A falta de zonas de amortecimento legalmente reconhecidas em terras indígenas, diferente das Unidades de Conservação, torna essas áreas mais vulneráveis. A fiscalização enfrenta dificuldades logísticas e de pessoal, devido ao tamanho do território e ao isolamento geográfico.
Respostas Oficiais e Desafios Persistentes
O Ibama informou ter realizado operações conjuntas com a Funai e o Exército Brasileiro no combate à pesca ilegal e outros crimes ambientais, resultando em autos de infração e apreensões. A reabertura da Unidade Técnica em Tabatinga visa manter presença regular na região.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) afirma ter reforçado o policiamento ostensivo, ações de inteligência e patrulhamento fluvial nos municípios do Vale do Javari, com apoio da Polícia Federal.
A Funai garante que sua Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari atua permanentemente na proteção dos povos isolados e de recente contato. O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) também atua na região com ações integradas de segurança e combate ao crime organizado.
Apesar das ações governamentais, a complexidade da rede criminosa, a vasta extensão territorial e a falta de recursos adequados continuam a representar desafios significativos para a proteção efetiva do Vale do Javari e de seus habitantes.