A produção de vacinas contra a COVID-19 pela Fiocruz não apenas salvou milhões de vidas, mas também deixou um legado duradouro para o Sistema Único de Saúde (SUS). A rápida resposta científica e a transferência de tecnologia impulsionaram a capacidade nacional e prepararam o país para enfrentar futuras emergências sanitárias.

A primeira vacina administrada fora de ensaios clínicos no mundo, em dezembro de 2020, marcou o início de uma corrida global pela imunização. Essa agilidade, longe de ser suspeita, foi um reflexo da mobilização científica e do conhecimento acumulado ao longo de décadas. A diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos), Rosane Cuber, destaca que as plataformas tecnológicas, como as de RNA e vetor viral, já eram consolidadas antes da pandemia.

“Elas só passaram por uma adequação. Não surgiram do nada. Tem muito acúmulo de pesquisa, muito acúmulo de conhecimento que foi aproveitado para o desenvolvimento rápido de novas vacinas”, explica Rosane Cuber. A Fiocruz, por meio do Bio-Manguinhos, foi fundamental na nacionalização da vacina Oxford/Astrazeneca, entregando 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) e demonstrando a força da produção pública brasileira.

A iniciativa de trazer a vacina para o Brasil começou em março de 2020, com a produção de testes diagnósticos e a prospecção de imunizantes. As negociações com a Universidade de Oxford e a Astrazeneca foram intensas, exigindo a criação de um arcabouço jurídico para a transferência de tecnologia de um produto ainda em desenvolvimento. Essa conquista foi possível graças à dedicação total dos pesquisadores e ao apoio da sociedade civil na aquisição de insumos e equipamentos.

Transferência de Tecnologia e Produção Nacional

A primeira remessa da vacina Oxford/Astrazeneca chegou ao Brasil em janeiro de 2021, seguida pela importação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para envase, rotulagem e controle de qualidade local. A partir de fevereiro de 2022, o Brasil passou a produzir a vacina 100% nacional, um marco na soberania sanitária do país. A capacidade instalada e a experiência do Bio-Manguinhos foram cruciais para o sucesso dessa empreitada, com acompanhamento rigoroso da Anvisa.

“A gente já tem uma história muito grande de fazer transferência de tecnologia e de produzir aqui. Então, realmente, só foi possível porque Bio-Manguinhos tinha capacidade instalada”, ressalta Rosane Cuber. Essa infraestrutura permitiu não apenas o conhecimento técnico, mas também a capacidade industrial para atender às demandas do SUS.

Legado para o SUS e Inovação em Terapias Avançadas

Embora a produção da vacina contra a COVID-19 tenha cessado com o fim da pandemia, seu impacto perdura. A vacina foi a mais utilizada no Brasil em 2021, ano em que a imunização teve início, e especialistas estimam que cerca de 300 mil vidas foram poupadas apenas nesse período. “Só o fato da gente ter conseguido contornar e bloquear a COVID no Brasil, isso por si só já bastaria como legado”, afirma a diretora.

O processo de desenvolvimento e produção de vacinas contra a COVID-19 impulsionou a pesquisa em outras áreas. Uma das heranças diretas é o desenvolvimento de uma terapia avançada para a atrofia muscular espinhal (AME), utilizando a mesma plataforma de vetor viral da vacina Oxford/Astrazeneca. Essa terapia, que antes custava cerca de R$ 7 milhões, tem potencial para reduzir significativamente os custos para o SUS.

Preparação para o Futuro e Reconhecimento Global

Além disso, o instituto está avançando em testes clínicos para uma vacina contra a COVID-19 com tecnologia de RNA mensageiro, a mesma utilizada pela Pfizer. Essa plataforma, já estudada para o tratamento de câncer, abre novas frentes de pesquisa e desenvolvimento para o SUS. A produção nacional de vacinas de mRNA garante soberania e acesso, reduzindo a dependência externa.

O desempenho da Fiocruz durante a pandemia elevou sua projeção global. Bio-Manguinhos foi escolhido como centro de produção pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) e como hub regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para desenvolvimento de produtos de RNA mensageiro. “O nosso direcionamento não é o lucro, mas sim aquilo que é lucro para sociedade. A gente faz entregas para a população brasileira”, conclui Rosane Cuber, reforçando o compromisso do laboratório público com a saúde pública.