Rocinha: Lajes se tornam ‘point’ turístico com vídeos virais, mas acendem debate sobre turismo em comunidades

A paisagem das lajes da Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, tornou-se um cenário cobiçado por turistas em busca de fotos e vídeos com vistas espetaculares. A atração, impulsionada pela viralização de conteúdos nas redes sociais, tem atraído um grande número de visitantes, que chegam a esperar horas e pagar até R$ 150 pela experiência.

A iniciativa, que busca mostrar o “lado positivo da favela” e combater preconceitos, tem sido defendida por empreendedores locais como uma forma de gerar renda e promover uma imagem mais diversa da comunidade. No entanto, a prática também tem sido alvo de críticas, com acusações de “romantização da pobreza” e de explorar a vulnerabilidade social para fins turísticos.

A discussão sobre o impacto do turismo em áreas de vulnerabilidade social ganha força em um momento de recorde de visitantes internacionais no Rio de Janeiro. Conforme informação divulgada pela agência governamental de turismo Embratur, somente em janeiro houve quase 290 mil visitantes internacionais, um número recorde. A situação na Rocinha reflete um dilema complexo entre oportunidade econômica e a representação cultural e social das favelas, segundo matéria da AFP.

Turismo de Experiência: Filmagens em Lajes Viram Fenômeno Viral

O sucesso é tão grande que turistas, muitos deles influenciadores digitais, formam filas de até duas horas para capturar o momento perfeito em drones. A experiência inclui a oportunidade de retocar a maquiagem enquanto aguardam, posando para filmagens aéreas que destacam a vista panorâmica da comunidade. A influenciadora Ingrid Ohara, com milhões de seguidores, participou da tendência, destacando a importância de mostrar o Brasil e o Rio de Janeiro.

“Esses vídeos que eu faço sempre pegam bastante visualização, e aí eu quis fazer aqui na Rocinha, porque está sendo viral no mundo todo”, explicou Ingrid à AFP. Ela acrescentou que as imagens “estão mostrando o nosso país, mostrando o nosso Rio de Janeiro, isso faz parte da nossa cultura”. O fundador da Na Favela Turismo, Renan Monteiro, que cresceu na Rocinha, nega a romantização, afirmando que o objetivo é “mudar ali o preconceito que existe na cabeça das pessoas”.

Renda Local e Oportunidades: O Outro Lado da Moeda

A iniciativa de turismo nas lajes representa uma fonte de renda importante para moradores locais. Proprietários de 26 lajes e terraços na Rocinha e Vidigal cobram para permitir as visitas, e pilotos de drone, como Pedro Lucas, de 19 anos, relatam que o trabalho “mudou” suas vidas, proporcionando ganhos significativos. “Seria bom se mais pessoas da favela tivessem a oportunidade”, comentou.

Claudiane Pereira dos Santos, 50 anos, celebra a “febre” turística, defendendo que a Rocinha não se resume ao crime. “Nós temos muita gente boa. Tem muito trabalhador, tem pessoas maravilhosas”, afirmou. A empregada doméstica acredita que é importante mostrar essa outra faceta da comunidade.

Críticas e Debates: Romantização da Pobreza ou Novo Olhar?

Apesar dos benefícios econômicos, a prática tem gerado incômodo. Comentários nas redes sociais acusam os visitantes de “romantizar a pobreza e o crime” em uma área marcada pela presença do tráfico de drogas. Cecilia Oliveira, diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, que monitora a violência armada, reconhece a busca por renda, mas alerta para o risco.

“O problema é quando a favela deixa de ser um bairro vivo, complexo e atravessado por desigualdades estruturais para virar apenas contraste exótico ou pano de fundo para conteúdo impactante”, lamentou Oliveira. A preocupação é que a complexidade social da favela seja reduzida a uma imagem superficial e estereotipada.

Segurança e Organização: Buscando um Turismo Responsável

Renan Monteiro explica que o acesso às lajes se dá por meio de tours organizados, que incluem passeios por becos, visitas a artistas locais e apresentações de capoeira. Para garantir a segurança, ele e líderes comunitários traçaram rotas e criaram um aplicativo para monitorar a localização dos guias. Em caso de operações policiais, as visitas são canceladas.

Monteiro lembra de tempos mais perigosos, como o assassinato de uma turista espanhola em 2017 durante um tiroteio. Após esse incidente, o turismo foi paralisado e, quando retomado, buscou-se uma forma mais segura e respeitosa de apresentar a favela a mais de 70 mil moradores.