Superlotação em Manaus expõe falhas graves no atendimento hospitalar
O Complexo Hospitalar Sul, que engloba o Instituto da Mulher Dona Lindu e o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, em Manaus, tem sido palco de situações alarmantes. Famílias relatam corredores lotados e a falta de leitos, forçando pacientes a receberem atendimento em condições sub-humanas. A precariedade do local tem levado à piora no quadro de saúde de muitos que buscam socorro.
Os casos expostos são de extrema gravidade e levantam sérias preocupações sobre a qualidade e a agilidade do atendimento médico oferecido. A situação reflete um colapso na infraestrutura hospitalar, onde a falta de espaço adequado compromete diretamente a saúde e a vida dos pacientes.
A Organização Social Agir Saúde, responsável pela gestão do complexo desde dezembro de 2024, prometeu melhorias significativas. No entanto, a realidade vivida pelos pacientes e seus familiares contradiz as expectativas, pintando um cenário desolador. Conforme informações divulgadas por familiares e pacientes, o atendimento tem sido marcado por longas esperas e descaso.
Pai com risco de amputação após 21 dias em enfermaria lotada
Um dos casos mais dramáticos é o de um homem que sofreu um infarto e teve diagnosticada água nos pulmões e problemas renais. Inicialmente encaminhado para a sala vermelha, ele deveria ter sido transferido para a UTI. Contudo, após 21 dias, ele permanece na enfermaria, onde seu quadro de saúde piorou consideravelmente.
Segundo a filha do paciente, que preferiu não se identificar por receio de represálias, o médico havia garantido a ida do pai para a UTI, considerando a gravidade do caso. “Ele vai para a UTI, é obrigatório ele ir para a UTI”, o médico teria afirmado. No entanto, a transferência para a enfermaria ocorreu no mesmo dia, e desde então, a falta de cuidados adequados teria levado à deterioração de seu pé, que agora corre o risco de ser amputado.
“Hoje em dia, o pé dele não tem mais como salvar, entendeu? Eles deixaram o pé do meu pai chegar nessa questão que está, porque eles, tipo assim, o meu pai não estava tendo tratamento nenhum na enfermaria”, desabafou a filha, evidenciando o descaso.
Mulher aguarda dois dias para remoção de feto em meio à superlotação
No Instituto da Mulher Dona Lindu, Elaine Bentes Nogueira passou por momentos de agonia após perder o bebê de oito semanas. Ela esperou por dois dias para que a equipe médica realizasse o procedimento de remoção do feto, sofrendo com fortes dores.
A mãe de Elaine relatou que a equipe médica justificava a demora alegando a existência de casos mais graves. “Sempre falava que sempre tinha casos mais graves que o da minha filha pra ir pra lá”, disse a mãe. A família chegou a registrar um boletim de ocorrência no Ministério Público, o que, segundo eles, agilizou o atendimento e permitiu que Elaine recebesse alta após o procedimento.
“Se foi uma coisa rápida, de 3 horas, 4 horas só de procedimento, por que que deixaram a minha filha ficar esperando esse tempo todo?”, questionou a mãe, indignada com o tempo de espera de Elaine, que deu entrada na terça-feira à tarde e recebeu alta na quinta-feira de manhã.
Governo do Amazonas se manifesta sobre os casos
Em nota oficial, o Governo do Amazonas declarou que os dois pacientes citados na reportagem receberam acompanhamento contínuo das equipes de saúde. O governo também negou que a intervenção do Ministério Público tenha sido o motivo para o procedimento de Elaine.
O Complexo Hospitalar 28 de Agosto, por sua vez, informou que as imagens de corredores lotados mostram parte do fluxo do pronto-socorro e não áreas de internação. A Organização Social Agir Saúde assumiu a gestão do complexo em dezembro de 2024, com um contrato de cinco anos e um repasse de R$ 2 bilhões do Governo do Amazonas. Em 2026, a OS deve receber R$ 400 milhões, dos quais R$ 260 milhões já foram pagos.