Comunidade Pedras Negras: Tradição e Subsistência com Tartarugas e Tracajás na Amazônia
Às margens do majestoso rio Guaporé, em Rondônia, reside a Comunidade Quilombola Pedras Negras, um reduto de cultura e tradição que resiste há mais de dois séculos. Entre suas práticas mais marcantes, está o consumo de tracajá e tartaruga-da-Amazônia, uma fonte de alimento que se confunde com a própria identidade local.
Esses quelônios aquáticos, símbolos da rica biodiversidade amazônica, não são apenas parte da dieta, mas também um elo com o passado. A comunidade se orgulha de ser um dos poucos povos no Brasil com autorização legal para essa prática, que se restringe à subsistência e ao consumo dentro de seus territórios.
A história de Pedras Negras se entrelaça com a própria formação de Rondônia, sendo ocupada por descendentes de pessoas escravizadas. A preservação dessa cultura alimentar, conforme informações divulgadas, é um direito garantido pela legislação ambiental, que reconhece o valor das comunidades tradicionais. Acompanhe os detalhes dessa fascinante tradição amazônica.
O Direito Ancestral ao Consumo de Quelônios
A legislação ambiental brasileira é clara ao permitir que comunidades tradicionais, como quilombolas, indígenas e ribeirinhos, consumam determinados animais silvestres para garantir sua subsistência. No entanto, essa permissão vem acompanhada de regras estritas: o consumo é exclusivo para o uso dentro dos territórios e a comercialização é proibida, visando a proteção das espécies.
O tracajá (Podocnemis unifilis) e a tartaruga-da-Amazônia (Podocnemis expansa) são os protagonistas dessa tradição. A tartaruga-da-Amazônia, a maior espécie de água doce do mundo, pode ultrapassar 50 quilos, enquanto o tracajá, menor, é notável por sua longevidade, podendo viver até 90 anos.
Pedras Negras: Sustentabilidade e Respeito à Natureza
A Comunidade Quilombola Pedras Negras, composta por aproximadamente 30 famílias, vive em harmonia com o ambiente, focando no extrativismo, na coleta de castanha, no turismo comunitário e na pesca. Os moradores, cientes da importância da preservação, evitam consumir tracajá e tartarugas quando recebem visitantes, para impedir que pessoas não autorizadas o façam.
Segundo Francisco Edivaldo Mendes, presidente da associação de moradores, essa medida é crucial para evitar que o consumo, que é um crime ambiental para quem não depende dele, se generalize. Essa atitude demonstra um profundo respeito pela natureza e pela sustentabilidade das espécies.
Da Culinária à Medicina: O Aproveitamento Completo dos Quelônios
Na culinária de Pedras Negras, a carne de tartaruga é preparada de diversas formas, como assada, cozida ou frita. Mas o aproveitamento vai além da carne. A banha do animal é transformada em um creme caseiro, utilizado para cuidados com a pele, valorizando cada parte do quelônio.
Os ovos também são aproveitados, servindo de base para gemadas e bolos, enriquecendo a dieta local. Tradicionalmente, o casco era utilizado na confecção de artesanato, uma prática que, embora venha diminuindo, ainda remete a um passado rico em saberes manuais.
Esforços de Conservação e a Realidade das Espécies
O superintendente do Ibama, César Guimarães, reforça que a prática de consumo por comunidades tradicionais é permitida, desde que cultural, tradicional e para subsistência. Ele alerta, contudo, que o consumo tem diminuído e que é fundamental respeitar os limites para não ameaçar a extinção das espécies. Pessoas não autorizadas flagradas com partes do animal podem ser multadas em R$ 5 mil por exemplar e responder criminalmente.
Apesar da diminuição de ocorrências, o consumo de tartarugas já foi considerado um símbolo de status no estado, cenário que mudou com a fiscalização e a conscientização ambiental. Biólogos como Flávio Terassini destacam a luta pela sobrevivência dos quelônios, especialmente na fase de filhote, onde a mortalidade é alta.
Para mitigar esse quadro, o Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), coordenado pelo Ibama desde 1979, atua no manejo de ninhos e na soltura de filhotes. Em 2024, cerca de 1,5 milhão de tartarugas foram devolvidas à natureza, um número que o projeto busca manter. Com o manejo, a taxa de filhotes que chegam à idade adulta foi praticamente dobrada, de 1,5% para cerca de 3%, garantindo um futuro mais promissor para esses animais.