O Irã em Ponto de Ebulição: O Regime Enfrenta Seu Maior Desafio Desde 1979

As ruas do Irã voltaram a ser palco de intensos protestos, configurando o maior teste de resistência para o regime islâmico desde a revolução de 1979. Em resposta à crescente insatisfação popular, as autoridades têm empregado uma repressão sem precedentes, incluindo um bloqueio quase total da internet e uma ofensiva de segurança rigorosa. A situação é agravada pelas ameaças quase diárias do presidente americano Donald Trump, que adicionam uma camada de incerteza externa a uma crise interna já alarmante.

Moradores relatam um silêncio forçado nas ruas, contrastando com a agitação anterior. “Na sexta-feira estava lotado, a multidão era impressionante e houve muitos tiros. No sábado à noite, tudo se acalmou”, disse um morador de Teerã à BBC. Essa mudança repentina sugere a eficácia da forte repressão governamental, que busca sufocar o descontentamento antes que ele ganhe força novamente.

A complexidade da situação é amplificada pela dinâmica com os Estados Unidos. Enquanto Trump sugere que o Irã busca renegociar, o país se encontra em uma posição delicada, incapaz de ceder às exigências maximalistas de Washington, como a interrupção total do enriquecimento de urânio, algo que contraria sua doutrina estratégica. A sobrevivência do regime, contudo, parece ser a prioridade máxima, com líderes inclinados a reprimir os protestos e buscar estabilidade antes de definir os próximos passos, conforme análise de Vali Nasr, especialista em Irã.

Conforme informações divulgadas pela BBC, esta semana pode ser decisiva. O desfecho determinará se o Irã e a região mergulharão em uma nova onda de conflitos militares ou se a força bruta do regime conseguirá, mais uma vez, silenciar os manifestantes. Apesar de o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, declarar que “a situação está agora sob controle total”, relatos que chegam através de terminais de satélite e da criatividade técnica local pintam um quadro sombrio, com hospitais lotados e necrotérios improvisados.

O Preço da Dissidência e a Dura Resposta do Regime

Os números da repressão são alarmantes. Em poucas semanas de protestos recentes, relatos indicam um número de mortes já significativamente maior do que em ondas anteriores, com mais de 20 mil pessoas detidas. A televisão estatal, surpreendentemente, tem exibido imagens de necrotérios improvisados, admitindo o falecimento de alguns manifestantes. A escalada da violência levou a ataques contra prédios governamentais, que o regime classifica como obra de “terroristas e agitadores”.

A linguagem jurídica também se endureceu drasticamente. Manifestantes são agora acusados de “travar uma guerra contra Deus”, crime que pode levar à pena de morte. A Organização Hengaw para os Direitos Humanos relatou que um jovem de 26 anos, detido recentemente, enfrentaria execução. O governo iraniano, como tem sido praxe, atribui a culpa pelo recrudescimento da violência a inimigos estrangeiros, como Israel e os Estados Unidos, com evidências de infiltração da agência de segurança israelense Mossad.

Raízes da Insatisfação: Crise Econômica e Descontentamento Social

Os protestos, que começaram de forma mais localizada com comerciantes insatisfeitos com o colapso da moeda, rapidamente se espalharam por todo o país. A promessa de diálogo do presidente Masoud Pezeshkian e a concessão de um pequeno subsídio mensal não foram suficientes para conter a onda de descontentamento. A inflação galopante, próxima a 50% ao ano, e a desvalorização da moeda têm devastado a vida da população.

O Irã sofre com anos de sanções internacionais, má gestão e corrupção. A indignação pelas restrições às liberdades sociais e o custo do prolongado confronto com o Ocidente alimentam o desejo por mudanças políticas e econômicas profundas. A questão central, no entanto, reside no sistema em si, que, apesar das crises, parece se manter de pé, sustentado pela lealdade das forças repressivas, como aponta Karim Sadjadpour, pesquisador da Fundação Carnegie.

Divisões Internas e o Papel das Ameaças Externas

A cúpula do poder iraniano está marcada por profundas divisões internas sobre questões cruciais, como a retomada das negociações nucleares com os Estados Unidos e a estratégia de dissuasão após os golpes sofridos por seus aliados. No entanto, a sobrevivência do regime une os atores mais poderosos, sob a liderança do aiatolá Ali Khamenei e a influência do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica. As ameaças de Trump intensificam a atenção da cúpula, mas uma intervenção militar externa poderia, paradoxalmente, consolidar a unidade da elite e suprimir as divisões internas, segundo Sanam Vakil, do centro de estudos Chatham House.

Vozes da Mudança: Dentro e Fora do Irã

Enquanto o regime busca controlar a narrativa, vozes influentes pedem mudanças. O ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, exilado, defende a intervenção do presidente Trump, embora seus apelos sejam controversos. Por outro lado, figuras como a vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Narges Mohammadi, e o cineasta Jafar Panahi, insistem na necessidade de uma transição pacífica e interna. A volta da bandeira iraniana pré-revolucionária, com o leão e o sol, simboliza um anseio por um passado diferente, mesmo que Pahlavi negue intenções de restaurar a monarquia, focando em uma transição democrática.

A história ensina que a combinação de fervor popular e força nas ruas pode levar a mudanças imprevisíveis e perigosas. A questão premente é se a atual onda de protestos resultará em uma transformação profunda ou será mais uma vez contida pela força, deixando o Irã em um estado de tensão latente, pronto para explodir novamente.