Procuradoria Eleitoral do RJ mira parentes de acusados para barrar candidaturas e combater o crime organizado
A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro está intensificando a atuação para impedir a candidatura de políticos que possuam vínculos com o crime organizado. Uma nova linha de ação busca barrar nomes que, embora não respondam diretamente a acusações criminais, possuem laços familiares com pessoas investigadas ou acusadas de envolvimento com atividades ilícitas.
A estratégia se baseia na alegação de que esses parentes podem se beneficiar e utilizar a estrutura criminosa e o domínio territorial de seus familiares, configurando uma continuidade de influência indevida na política. A medida visa ampliar o escopo de atuação da Justiça Eleitoral, seguindo uma linha já estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ao menos duas impugnações já foram apresentadas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro contra candidatos com essa característica, demonstrando a nova abordagem da Procuradoria. A informação foi divulgada pela própria Procuradoria Eleitoral.
Candidaturas de neto de bicheiro e filho de deputada são contestadas
Entre os alvos da Procuradoria Eleitoral estão João Drumond (PRD), neto do bicheiro Luizinho Drumond, e o vereador Junior da Lucinha (PSD), filho da deputada Lucinha (PSD), que é acusada de envolvimento com milícia. Ambos buscam uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A Procuradoria argumenta que os vínculos familiares, neste caso, não são meras circunstâncias biográficas, mas sim elementos que indicam a continuidade política e eleitoral de grupos criminosos. A intenção é impedir que estruturas de criminalidade organizada interfiram na formação da vontade popular e na ocupação de espaços de representação política.
João Drumond, bacharel em direito, expressou perplexidade e revolta com a manifestação do Ministério Público Eleitoral, confiante de que as ilações serão rechaçadas pela Justiça. Ele ressalta que não responde a acusações criminais.
Por sua vez, Junior da Lucinha afirmou que um inquérito contra ele já foi arquivado por “inexistência de elementos mínimos ou indícios de materialidade e autoria de qualquer ilícito eleitoral ou associação criminosa”. Ele enfatizou que a responsabilidade penal e eleitoral é estritamente individual.
Entendimento do TSE e ampliação da tese de vinculação ao crime
A Justiça Eleitoral tem buscado mecanismos para barrar políticos vinculados a grupos criminosos, o que antes encontrava dificuldades devido à necessidade de condenação em segunda instância, conforme a Lei da Ficha Limpa. Em eleições anteriores, o TSE já estabeleceu que a suspeita de vínculo com grupos armados pode ser suficiente para impedir a participação no pleito.
Com base nesse entendimento, a Procuradoria Eleitoral tem utilizado uma expressão de acórdãos de 2024 para ampliar as possibilidades de vinculação com o crime. O Ministério Público afirma que bastam “elementos denotativos de sua participação em milícia armada” para questionar uma candidatura.
No caso de João Drumond, a Procuradoria aponta seu envolvimento com a escola de samba Imperatriz Leopoldinense e a direção financeira da Liesa como inserção na organização institucional do universo da contravenção. A existência de outros familiares envolvidos com atividades ilícitas, como o tio Vinicius Pereira Drumond, acusado de envolvimento com jogo do bicho, agiotagem e homicídio, reforça o argumento.
A candidatura de Drumond, segundo a Procuradoria, não emerge de uma trajetória política desvinculada, mas de um núcleo familiar com influência há décadas no ambiente do samba e, segundo os elementos informativos, também no universo da contravenção e do crime organizado.
Caso Junior da Lucinha e a sucessão política familiar
A impugnação da candidatura de Junior da Lucinha segue uma lógica semelhante. A Procuradoria Eleitoral alega que sua postulação representa uma clara estratégia de sucessão formal para manter o “espólio político-territorial da ‘família Barros'”, estruturado sob redes de influência investigadas por constituição de milícia privada.
A impugnação cita relatos de investigações contra a deputada Lucinha, indicando coação de eleitores para participarem de eventos e votarem em seu filho. Aponta também a atuação do irmão de um miliciano como cabo eleitoral do vereador.
Além desses dois casos, o deputado Val Ceasa (PRD) também teve sua candidatura impugnada. Ele foi alvo de uma operação sob suspeita de atuar em favor do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, da facção Terceiro Comando Puro. Val Ceasa nega as acusações.