Portugal se prepara para segundo turno presidencial com disputa acirrada e cenário de incertezas
O segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, marcado para este domingo, 8 de fevereiro, coloca em xeque o futuro político do país. A disputa entre o socialista António José Seguro e o candidato da direita radical, André Ventura, reflete uma tendência europeia de ascensão da extrema-direita, que preocupa partidos tradicionais.
O país enfrenta não apenas uma decisão política crucial, mas também os impactos de fortes tempestades que causaram mortes e danos significativos. A situação de “calamidade pública” adiciona um elemento de urgência e complexidade ao já tenso cenário eleitoral.
Enquanto Seguro busca o voto moderado, Ventura aposta em um discurso anti-imigração e críticas às elites. A polarização se intensifica, com os olhos da Europa voltados para o resultado, conforme análises da BBC News Brasil.
A ascensão do Chega e o desafio para a democracia
André Ventura, líder do partido de direita radical Chega, tem apresentado um crescimento notável. Segundo o agregador de pesquisas do jornal digital Observador, Ventura deve obter 32,6% dos votos, um patamar que, se confirmado, superaria o desempenho da atual coligação governista de centro-direita, a Aliança Democrática (AD), nas eleições legislativas de 2025.
Cientistas políticos como António Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa, alertam que ultrapassar os 32% daria a Ventura “base para afirmar que agora é a principal força da direita em Portugal”. Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, destaca a rapidez do avanço do Chega, que saltou de 1,3% em 2019 para 22,8% nas legislativas de 2025, um crescimento incomum na Europa.
Estratégia de “cordão sanitário” e apoio conservador a Seguro
Diante do avanço da direita radical, partidos tradicionais e figuras proeminentes da centro-direita têm lançado um “cordão sanitário” em torno do candidato socialista António José Seguro. Essa estratégia visa conter a ascensão de Ventura, reafirmando o compromisso com valores democráticos.
Políticos como o ex-presidente Aníbal Cavaco Silva e os prefeitos de Lisboa e Porto, Carlos Moedas e Pedro Duarte (ambos do PSD), além de Paulo Portas, ex-líder do CDS–PP, manifestaram apoio a Seguro. A decisão, segundo analistas, busca preservar a “defesa da democracia” e a “moderação política”, elementos vistos como ameaçados pelo discurso do Chega.
A estratégia, no entanto, corre o risco de reforçar a narrativa de Ventura como o único “representante legítimo da direita”, como aponta Pedro Magalhães, da Universidade de Lisboa. O apoio a Seguro também se justifica por ele ser visto como uma figura centrista e moderada, que pode ajudar a preservar o frágil equilíbrio do governo minoritário de centro-direita liderado pelo PSD.
O poder presidencial e a fragilidade do governo minoritário
No regime semipresidencialista português, o presidente, embora não governe diretamente, possui poderes relevantes. Vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro e, em situações extremas, dissolver o Parlamento são algumas de suas prerrogativas.
O atual governo minoritário, liderado pelo PSD, depende do apoio ou da abstenção de outros partidos para aprovar projetos. O Orçamento de novembro, por exemplo, só passou com a abstenção do PS. A eleição de Seguro é vista como uma forma de garantir estabilidade e pressionar o PS a se abster em momentos cruciais.
Impacto das tempestades e o discurso xenófobo do Chega
As fortes tempestades que atingem Portugal podem influenciar o comparecimento às urnas, com Ventura chegando a pedir o adiamento da eleição. Enquanto autoridades eleitorais descartam a possibilidade geral, adiamentos pontuais em alguns municípios são admitidos.
O Chega, fundado em 2019, tem como plataforma a rejeição à corrupção, políticas de segurança mais rígidas e o combate à imigração. Discursos xenófobos, como outdoors com a frase “Isto não é o Bangladesh” e comentários negativos sobre a comunidade cigana, marcaram a campanha de Ventura.
A politização da imigração é um dos motores do avanço da direita radical na Europa. Em Portugal, o número de estrangeiros mais que dobrou, aumentando a pressão sobre os serviços públicos. Esse cenário, somado ao custo de vida e à crise habitacional, alimenta a desconfiança nas instituições, favorecendo discursos como o do Chega.
Apesar de o discurso do Chega ter evitado ataques diretos a brasileiros, a pressão do partido contribuiu para o endurecimento das políticas migratórias, afetando diretamente essa comunidade. Aumento de crimes de ódio e episódios de xenofobia também são apontados por organizações da sociedade civil, em um contexto de normalização do discurso anti-estrangeiros.
A ascensão da direita radical na Europa é uma tendência consolidada, com partidos como o Vox na Espanha, o Reunião Nacional na França e a AfD na Alemanha ampliando sua representação. O caso português, com o crescimento do Chega em um cenário de relativa estabilidade econômica, levanta questões sobre a distribuição dos avanços e a satisfação de todos os setores da sociedade, conforme apontam economistas e cientistas políticos.