O papa Leão XIV realizou um gesto sem precedentes nesta segunda-feira (25) ao pedir perdão, de forma explícita e em nome da Santa Sé, pelo papel histórico da Igreja Católica na legitimação da escravidão — especialmente por meio de decretos papais que, por séculos, autorizaram a subjugação de povos não cristãos.

O pedido de desculpas foi formalizado na primeira encíclica do pontífice, intitulada “Magnifica Humanitas” (“Humanidade Magnífica”), que trata dos desafios éticos da inteligência artificial. Em um trecho do documento, Leão XIV conecta o tráfico transatlântico de pessoas às novas formas de exploração digital, como o trabalho análogo à escravidão na extração de minerais para a produção de chips.

Ao contrário de declarações anteriores de outros papas — que pediram desculpas pelo envolvimento de cristãos na escravidão, mas nunca reconheceram a participação direta do próprio Vaticano —, Leão XIV foi direto: admitiu que pontífices do século XV, como Nicolau V, autorizaram reis europeus a “invadir, combater e subjugar” sarracenos, pagãos e outros “infiéis”, reduzindo-os à “escravidão perpétua”.

“Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados”, escreveu o papa. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”

Doutrina da Descoberta e séculos de silêncio

O Vaticano sempre sustentou ter defendido a dignidade humana. No entanto, bulas como Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1455) serviram de base para a chamada Doutrina da Descoberta, usada para justificar a colonização de terras na África e nas Américas. Essas permissões foram reafirmadas pelos papas Calisto III, Sisto IV e Leão X.

Apesar de o Vaticano ter repudiado formalmente a doutrina em 2023, nunca anulou oficialmente as bulas papais. Leão XIV também lembrou que a Igreja demorou a condenar a escravidão: apenas em 1888, o papa Leão XIII o fez de forma explícita, quando muitos países já haviam abolido a prática.

Origem familiar e reparação histórica

Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV tem ascendência que inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos — o que, segundo especialistas, confere ao seu pedido de perdão uma carga pessoal e simbólica ainda maior.

O pontífice afirmou que, embora não se possa julgar o passado apenas pelos padrões atuais, a demora em denunciar a escravidão é uma responsabilidade histórica da Igreja. Ele também alertou que novas formas de exploração na era digital exigem condenação imediata, “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro”.

O pedido de desculpas de Leão XIV atende a décadas de pressão de católicos negros, ativistas e estudiosos, especialmente nos Estados Unidos, que cobravam um reconhecimento direto do papel do Vaticano no comércio colonial de seres humanos.