O golpe de 1953: como EUA e Reino Unido derrubaram democracia iraniana e criaram rastro de instabilidade
Em 19 de agosto de 1953, um evento crucial marcou a história do Irã: um golpe de Estado orquestrado pelas agências de inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mosaddegh. Essa operação, conhecida como Operação Ajax pelos americanos e Operação Boot pelos britânicos, não apenas alterou o destino do povo iraniano, mas também se tornou um dos momentos mais definidores da história moderna do Oriente Médio.
O golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo no país e fomentou um profundo sentimento antiocidental, cujas consequências são sentidas até hoje. A intervenção estrangeira na soberania iraniana redefiniu a política interna e externa do país, impactando a geopolítica regional de forma duradoura.
“O golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular e ao Ocidente em geral”, destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de Sociologia na Universidade de Manchester. Conforme informações divulgadas pelo Departamento de Estado americano em 2013, a CIA admitiu seu envolvimento, detalhando a operação em documentos que antes eram confidenciais.
O Contexto da Guerra Fria e o Interesse no Petróleo
Na década de 1950, o Irã era estrategicamente vital para o Ocidente. A sua localização geográfica era crucial para conter a influência soviética no Golfo Pérsico e impedir a disseminação do comunismo na região. Além disso, as vastas reservas de petróleo do país, controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo (AIOC), representavam um interesse econômico significativo.
A eleição de Mohammad Mosaddegh como primeiro-ministro em 1951 representou um passo importante para a democracia iraniana. Seu principal objetivo era a nacionalização da indústria petrolífera, uma medida popular internamente, mas que gerou grande apreensão no Reino Unido, que via ameaçada sua maior e mais lucrativa empresa.
Os Estados Unidos, por sua vez, temiam que Mosaddegh pudesse abrir portas para maior influência soviética, especialmente considerando a presença de movimentos comunistas e socialistas no Irã. A recusa de Mosaddegh em aceitar o envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera levou o Reino Unido a buscar a ajuda americana, argumentando que ele representava uma ameaça à luta contra o comunismo.
A Conspiração e a Execução do Golpe
A conspiração para derrubar Mosaddegh foi meticulosamente planejada. O plano britânico previa a substituição do primeiro-ministro pelo general Fazlollah Zahedi, considerado um aliado mais maleável e subserviente ao xá Reza Pahlavi, que simpatizava com os interesses ocidentais e era anticomunista. Kermit Roosevelt, oficial da CIA e neto do ex-presidente Theodore Roosevelt, liderou a operação.
Roosevelt chegou ao Irã em julho de 1953 e imediatamente iniciou contatos com agentes iranianos, organizou apoio entre oficiais do Exército e buscou aliados no clero islâmico. A operação combinou manipulação política, guerra psicológica e a orquestração de tumultos de rua. Grupos de oposição, militares e clérigos foram financiados e organizados, enquanto campanhas de propaganda retratavam Mosaddegh como uma ameaça à estabilidade.
Em meio ao caos gerado pelos protestos e tumultos, o general Zahedi mobilizou o Exército para restabelecer a ordem. Por meio da força militar, o governo de Mosaddegh foi derrubado e o primeiro-ministro foi preso. Documentos revelam o envolvimento de clérigos proeminentes, como o aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel fundamental no golpe.
O Legado do Golpe e a Ascensão da República Islâmica
Após ser julgado por traição e condenado a três anos de prisão, Mosaddegh passou o resto de sua vida em prisão domiciliar, falecendo em 1967. Sua deposição inaugurou uma era de autoritarismo sob o xá Reza Pahlavi, que, com o auxílio da CIA, estabeleceu a agência de inteligência Savak. Partidos de oposição foram proibidos e ativistas silenciados, consolidando um regime repressivo.
O governo do xá, embora tenha coincidido com um período de crescimento econômico para alguns, aprofundou a desigualdade no Irã. Essa situação, somada à repressão e ao sentimento antiocidental, pavimentou o caminho para a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a monarquia e instaurou a República Islâmica sob a liderança do aiatolá Ruhollah Khomeini.
A revolução reverteu as políticas pró-ocidentais e estabeleceu um regime teocrático com rigorosas leis religiosas e restrições sociais. As relações entre os Estados Unidos e o Irã deterioraram-se drasticamente após o sequestro de reféns na embaixada americana em Teerã, levando à ruptura diplomática em 1980 e à imposição de sanções econômicas que perduram até hoje.
“Não é fácil especular em retrospectiva sobre o que poderia ter acontecido, mas acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente eleitos em todo o Sul Global”, afirma Fadaee. O legado desse golpe continua a gerar questionamentos sobre o destino do Irã e as relações do país com o Ocidente.