António José Seguro assume a Presidência de Portugal em cenário de tensão com o avanço da direita radical.

O novo presidente de Portugal, António José Seguro, eleito neste domingo, assume o cargo em um momento de significativa instabilidade política e social no país. Sua vitória sobre André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega, foi marcada por um apelo ao voto moderado e à defesa da democracia.

No entanto, Seguro herda um contexto político complexo, com um Chega fortalecido e uma retórica anti-imigração que gera preocupações, especialmente para a comunidade brasileira. A eleição reflete uma disputa polarizada entre forças políticas distintas.

A eleição de Seguro, considerado um centrista da esquerda, foi vista como um sinal de preferência pela moderação e tolerância, segundo Joana Ricarte, pesquisadora da Universidade de Coimbra. A posse está prevista para março, e os brasileiros em Portugal acompanham atentamente os desafios que o novo presidente terá pela frente.

Desafio 1: Navegar em um Sistema Político Fragmentado

Um dos principais desafios para António José Seguro será gerenciar a fragmentação e a instabilidade do sistema político português. O regime semipresidencialista confere ao presidente poderes importantes, como a posse do primeiro-ministro, o veto a leis e, em último caso, a dissolução do Parlamento.

O Parlamento português, que conta com 230 deputados, viu o Chega emergir como a segunda maior força com 60 parlamentares, após as eleições legislativas de 2025. Essa composição dificulta a formação de maiorias estáveis, exigindo habilidade política para a governabilidade.

Seguro já sinalizou que a dissolução do Parlamento seria um “último recurso”. A decisão sobre como lidar com possíveis crises de governabilidade dependerá do contexto, mas a Constituição portuguesa oferece mecanismos para tal.

Desafio 2: Política Migratória e Direitos das Minorias

A política migratória e a proteção dos direitos das minorias são temas cruciais, especialmente para os mais de meio milhão de brasileiros residentes em Portugal. O debate sobre imigração se intensificou com o aumento expressivo da população estrangeira e a exploração política do tema pelo Chega.

O partido de André Ventura defende um endurecimento das leis de imigração, o que já resultou em restrições a vistos de trabalho e regras mais rígidas para reagrupamento familiar. A proposta de priorizar portugueses no acesso a serviços públicos, sob o slogan “Os portugueses primeiro”, pode impactar diretamente os brasileiros.

António Costa Pinto, cientista político, afirma que as propostas do Chega visam uma redução da imigração e dos direitos sociais dos imigrantes, o que seria anticonstitucional. Espera-se que Seguro atue como um poder moderador, garantindo o respeito aos princípios constitucionais.

Desafio 3: Relações Internacionais e o Papel de Portugal na Europa

Como Chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas, o presidente português exerce influência nas políticas de defesa e externa, embora a definição dessas políticas caiba ao governo. A eleição de António José Seguro assegura a continuidade de Portugal como uma voz moderada na Europa.

A vitória de Seguro funciona como um freio a uma possível virada na política externa portuguesa, garantindo a manutenção das alianças europeias e internacionais. Isso é especialmente relevante em um cenário global instável, marcado pela guerra na Ucrânia e debates sobre a autonomia de defesa europeia.

Nas relações com o Brasil, a expectativa é de um favorecimento do diálogo. Seguro, em contraste com Ventura, que demonstrou simpatia por Jair Bolsonaro e críticas a Luiz Inácio Lula da Silva, tende a manter um bom relacionamento com o atual governo brasileiro, podendo atuar no estreitamento de laços e na promoção de acordos comerciais, como o entre Mercosul e União Europeia.