Marinheiros Relatam Condições Desumanas em Navios Fantasmas Usados para Contornar Sanções de Petróleo
Uma rede complexa de embarcações, conhecida como “frota fantasma”, tem crescido exponencialmente, operando em águas internacionais com o objetivo de transportar petróleo de países sob sanções, como Rússia e Irã. Esses navios utilizam táticas sofisticadas para ocultar suas identidades, mudando de nome, bandeira e sistema de rastreamento, o que dificulta a fiscalização e permite que os lucros alimentem conflitos e repressão.
A situação de tripulantes a bordo dessas embarcações tem sido comparada à “escravidão moderna”. Relatos indicam falta de pagamento, condições precárias de trabalho e alimentação, além de equipamentos de segurança falhos. Muitos marinheiros, como Denis, um engenheiro russo que serviu a bordo do petroleiro sancionado Serena, afirmam que só descobrem a verdadeira natureza do navio após embarcarem, sentindo-se presos e sem poder deixar a embarcação.
Esses navios, muitas vezes antigos e mal mantidos, operam com pouca transparência, dificultando a identificação de seus verdadeiros proprietários. A Federação Internacional dos Trabalhadores do Transporte (ITF) tem recebido um número crescente de queixas e atua para resgatar esses marinheiros, mas o desafio é imenso devido à natureza oculta e global dessa frota. Conforme informações divulgadas pela BBC, a “frota fantasma” conta atualmente com cerca de 1.468 navios, triplicando seu tamanho desde o início da guerra na Ucrânia.
O Crescimento Alarmante da Frota Fantasma
O fenômeno dos navios fantasmas, também chamados de “navios-sombra” ou “frota sombria”, não é novo, tendo surgido nos anos 2010 com a Coreia do Norte e o Irã buscando driblar sanções. No entanto, seu crescimento acelerado nos últimos anos é motivo de grande preocupação para governos ocidentais. Estimativas do grupo TankerTrackers.com indicam que essa frota representa hoje entre 18% e 19% do total da frota comercial global, transportando cerca de 17% do petróleo bruto mundial.
Essas embarcações frequentemente exibem características como idade avançada (média de 20 anos), pouca manutenção, propriedade obscura, trocas frequentes de nome, número de identificação e bandeira, além de seguro abaixo dos padrões internacionais ou inexistente. O desligamento ou manipulação do Sistema Automático de Identificação (AIS) é uma tática comum para dificultar o rastreamento.
“Navios Zumbis”: A Arte de Roubar Identidades no Mar
Uma categoria particularmente preocupante dentro da frota fantasma são os chamados “navios zumbis”. Eles roubam a identidade de navios desativados ou sucateados para mascarar sua verdadeira natureza. Após serem sancionados, esses navios desaparecem dos sistemas de rastreamento e reaparecem com um novo nome e um número de Identificação Marítima Internacional (IMO) roubado. O petroleiro Gale, por exemplo, é citado como um “navio zumbi” que assumiu diversas identidades, incluindo Beeta, para transportar petróleo iraniano sancionado.
A prática de “spoofing”, que falsifica a localização do navio em sistemas de rastreamento, é outra tática empregada. O Gale foi flagrado manipulando seu AIS para parecer estar em locais diferentes de sua posição real, dificultando ainda mais a detecção de suas atividades ilícitas. A empresa de inteligência marítima Kpler confirma que o histórico e o comportamento do Gale são consistentes com a manipulação deliberada de identidade.
A Luta Internacional Contra a Ilegalidade Marítima
Governos ao redor do mundo buscam formas de combater esse fluxo de petróleo sancionado. Os Estados Unidos têm adotado uma abordagem mais direta, capturando petroleiros envolvidos em atividades ilícitas, como no caso do Marinera. O Reino Unido e outros países europeus também têm intensificado seus esforços, com operações de interceptação e discussões sobre medidas mais rigorosas, incluindo a proibição de serviços marítimos para petroleiros russos.
No entanto, a captura de navios fantasmas apresenta desafios logísticos e financeiros significativos. A manutenção dessas embarcações, muitas vezes antigas e com risco ambiental, além do custo de armazenamento, são obstáculos consideráveis. A questão do que fazer com o petróleo apreendido também é complexa, com os EUA optando pelo confisco, enquanto aliados europeus demonstram cautela.
Ucrânia e o Uso de Drones Contra a Frota Fantasma
A Ucrânia, por sua vez, tem utilizado drones e minas para atacar petroleiros fantasmas russos, principalmente no Mar Negro. Esses ataques demonstram uma abordagem mais assertiva, embora com riscos de escalada e incidentes internacionais. A maioria dos esforços internacionais tem sido burocrática, focada em sanções, na restrição de bandeiras de conveniência e na exigência de comprovação de seguro para embarcações que entram em águas da UE.
A manipulação do AIS e a interferência em sistemas de navegação por satélite também levantam preocupações de segurança nacional, com a possibilidade de navios operando sob bandeiras falsas serem tratados como “navios sem nacionalidade”. A rede de fiscalização está gradualmente se apertando, mas a capacidade de adaptação e operação nas sombras da frota fantasma continua sendo um desafio global persistente, com a Rússia e o Irã utilizando as sanções como motor para a inovação em suas operações marítimas ilícitas.