Mercúrio na Amazônia: Saúde de Gestantes e Bebês Munduruku Ameaçada pelo Garimpo Ilegal
Mulheres gestantes da Terra Indígena Munduruku, no Pará, apresentam níveis de mercúrio no corpo quatro vezes e meio acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A média encontrada é de 9,1 microgramas por grama de cabelo (µg/g), enquanto o seguro é de até 2 µg/g.
Os alarmantes dados preliminares são do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, realizado pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). A pesquisa foi apresentada por Paulo Basta, coordenador do estudo, na Rio Nature & Climate Week.
A contaminação não afeta apenas as mães. Cerca de 90% dos bebês Munduruku já nascem com mercúrio no organismo, transmitido pela placenta. A situação é um reflexo direto da intensa atividade de garimpo ilegal na região, que utiliza o metal e contamina rios e a cadeia alimentar. Conforme informação divulgada pela Fiocruz, a principal fonte de contaminação para os indígenas é o consumo de peixes. O garimpo ilegal na Amazônia abrange cerca de 92% das áreas garimpadas no Brasil, sendo 85% dedicados à extração de ouro.
Níveis Críticos de Contaminação e Riscos Neurológicos
Dos 195 mulheres monitoradas, 97% apresentaram mercúrio acima do nível seguro. Em um caso extremo, uma mulher registrou 39,9 µg/g, o que representa 20 vezes o limite tolerável. Entre os 134 bebês já nascidos, a média de contaminação é de 5,8 µg/g, três vezes acima do recomendado. Um caso alarmante mostrou 30,8 µg/g, 15 vezes o limite seguro.
Paulo Basta explica que o mercúrio é uma **neurotoxina** que afeta o sistema nervoso central, causando lesões **irreversíveis**. A hipótese da pesquisa é que a exposição pré-natal ao mercúrio provoca **retardo no neurodesenvolvimento** dos bebês. Ele ressalta o aumento de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, **suspeitas de relação com a contaminação por mercúrio**.
A Revolta e a Falta de Estrutura de Monitoramento
Alessandra Korap Munduruku, liderança indígena, relata a comoção e revolta da comunidade quando os primeiros resultados foram divulgados em 2022.