Manaus completa cinco anos da crise do oxigênio, um fantasma que assombra a saúde pública brasileira
Em 14 de janeiro de 2021, Manaus viveu um dos capítulos mais sombrios da pandemia de Covid-19 no Brasil. A capital amazonense enfrentou um colapso sem precedentes no sistema de saúde, marcado pela dramática falta de oxigênio em hospitais públicos. Centenas de pacientes lutaram pela vida sem o insumo essencial para respirar, expondo as fragilidades da estrutura de saúde.
O cenário era de desespero. Hospitais lotados, pacientes do lado de fora, familiares buscando cilindros em carros próprios e a dura decisão de transferir doentes para outros estados. A tragédia deixou mais de 60 mortos, segundo investigações do Ministério Público e da Defensoria Pública. Cinco anos depois, a pergunta ecoa: quem foi responsabilizado pela falta de oxigênio em Manaus?
O g1 traz depoimentos de quem vivenciou o caos e relembra os principais pontos deste episódio que chocou o país, expondo a falha no planejamento e a ausência de medidas eficazes para evitar a catástrofe sanitária. A crise do oxigênio em Manaus é um lembrete doloroso da necessidade de atenção e investimento contínuos na saúde pública.
O dia em que o ar faltou: um relato de desespero nos hospitais
A técnica de enfermagem Cintia Elisa lembra vividamente de sua chegada ao Hospital e Pronto-Socorro (HPS) João Lúcio naquela manhã de quinta-feira. A demanda por oxigênio aumentava a cada instante, e o sistema de saúde chegava ao limite. Em unidades como o João Lúcio, o fornecimento precisou ser drasticamente reduzido, priorizando apenas os pacientes em estado mais grave.
O médico Juan Carlos Villagomez descreveu a cena como um verdadeiro campo de guerra. Enquanto tentava salvar vidas, soube que sua própria irmã lutava por uma vaga na UTI sem sucesso. A UTI do Hospital João Lúcio estava completamente lotada, sem espaço para mais ninguém. A falta de oxigênio se tornou uma corrida contra o tempo, com a incerteza do reabastecimento pairando no ar.
A matemática da tragédia: consumo de oxigênio e o déficit alarmante
No início de janeiro de 2021, Manaus registrava um crescimento exponencial de casos de Covid-19, impulsionado pela segunda onda da pandemia e por variantes mais transmissíveis. A demanda por oxigênio disparou, superando em muito a capacidade de produção local e os estoques disponíveis. Conforme dados obtidos pelo g1, o consumo diário saltou de uma média de 15 a 17 mil metros cúbicos para impressionantes 76,5 mil metros cúbicos no dia 14 de janeiro.
As empresas fornecedoras, White Martins, Carbox e Nitron, tinham uma produção total de 28,2 mil metros cúbicos diários. Isso gerou um déficit de 48,3 mil metros cúbicos, um abismo que se traduziu em sofrimento e morte. Hospitais fecharam as portas, e familiares corriam desesperadamente em busca de cilindros em fornecedores privados.
A omissão e os alertas ignorados antes do colapso
Documentos revelam que alertas sobre o aumento do consumo de oxigênio foram feitos às autoridades dias antes da ruptura total dos estoques. Em 11 de janeiro, a White Martins já alertava que o consumo estava seis vezes maior. No entanto, as medidas tomadas foram consideradas insuficientes para evitar a crise. O então representante do Ministério da Saúde atribuiu parte da crise ao consumo por pacientes em leitos clínicos, que, buscando alívio para a falta de ar, aumentavam a demanda.
Governos federal, estadual e municipal foram criticados por não agir com a rapidez e a escala necessárias diante dos sinais de alerta. As entregas de oxigênio, por aeronaves e transportes terrestres, só ganharam maior intensidade após o colapso já declarado em 14 de janeiro. A omissão e a falta de planejamento foram cruciais para a tragédia.
A busca por justiça e reparação: indenizações e ações judiciais
A crise do oxigênio em Manaus continua a repercutir na esfera judicial e política. Em dezembro de 2023, decisões judiciais já reconheciam a ligação entre a falta de oxigênio e a responsabilização de entes públicos, com famílias de vítimas recebendo indenizações. Um caso notório concedeu R$ 1,4 milhão a parentes de uma paciente falecida durante a crise.
Em abril de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE/AM) ajuizaram uma ação civil pública pedindo a indenização de R$ 4 bilhões por danos individuais, sociais e morais coletivos contra a União, o estado do Amazonas e a prefeitura de Manaus. A ação argumenta que a falta de planejamento e a omissão das autoridades causaram a tragédia sanitária. Além da compensação financeira, a ação pede medidas como a realização de audiências públicas, a construção de memoriais e a elaboração de programas de apoio aos familiares, em um esforço para garantir memória, verdade e reparação para as vítimas da crise do oxigênio.