Turismo excessivo: como países combatem a saturação com medidas criativas e radicais

O turismo global atingiu níveis recordes, mas a popularidade de certos destinos tem gerado problemas de convivência e infraestrutura. Moradores reclamam de lixo, invasão de propriedades e aglomerações insustentáveis.

Em resposta, governos e autoridades locais têm implementado estratégias antes consideradas extremas. O objetivo é claro: gerenciar o fluxo de visitantes, garantir a qualidade de vida dos residentes e, ao mesmo tempo, manter a atratividade turística.

As soluções variam desde o controle de multidões por inteligência artificial até o aumento expressivo de preços para turistas estrangeiros, passando pelo cancelamento de eventos icônicos. Conforme informações divulgadas pela BBC, essas medidas visam espalhar os visitantes, promover o bom comportamento e incentivar visitas em períodos de menor movimento.

Japão: Cancelamento de Festivais e Barreiras Físicas contra o Turismo Excessivo

O Japão tem sido palco de ações contundentes. A cidade de Fujiyoshida cancelou seu famoso festival anual de flores de cerejeira, que atraía cerca de 200 mil visitantes para uma população de 44 mil habitantes, devido a reclamações sobre lixo e invasão de propriedades. Em 2024, Fujikawaguchiko ergueu uma barreira física para impedir que turistas subissem em telhados para fotografar o Monte Fuji, combatendo o comportamento de risco.

Kyoto também implementou restrições, proibindo fotos de gueixas em certas áreas e limitando o acesso ao distrito histórico de Gion. A cidade aposta em tecnologia com a ferramenta ‘Previsão de Congestionamentos’ para indicar os melhores horários de visita e o aplicativo ‘Smart Navi’ para atualizações em tempo real sobre aglomerações. A iniciativa ‘Hidden Gems’ promove regiões menos visitadas, buscando distribuir o fluxo turístico.

O gerente da Divisão de Promoção do Turismo Sustentável de Kyoto, Kousaku Ono, afirmou que “não existe uma bala de prata para o turismo excessivo, mas pretendemos continuar implementando medidas para proteger o dia a dia dos cidadãos, garantindo, ao mesmo tempo, que os visitantes possam ter uma estadia confortável”.

Estados Unidos: Taxação Elevada e Desafios Estruturais no Turismo Excessivo

Nos Estados Unidos, a estratégia tem sido financeira. Em 2026, 11 parques nacionais populares, como Yellowstone e Grand Canyon, passaram a cobrar uma sobretaxa de US$ 100 (cerca de R$ 520) para visitantes internacionais. O passaporte anual ‘America the Beautiful’ agora custa US$ 250 (cerca de R$ 1,3 mil) para não residentes, o triplo do valor para cidadãos americanos.

Essa política visa reduzir a superlotação, que se concentra em apenas 25 dos 433 parques nacionais. No entanto, alguns especialistas duvidam da eficácia isolada dessa medida. Kevin Jackson, fundador da EXP Journeys, observa que “é improvável que o aumento dos ingressos, sozinho, reduza significativamente o turismo excessivo na alta estação”, pois o custo do ingresso representa uma pequena parte do orçamento total para muitos viajantes.

Dulani Porter, vice-presidente executiva da SPARK, aponta para questões estruturais mais profundas, como a capacidade limitada de rodovias e estacionamentos, além dos padrões de viagens domésticas. Ela ressalta que o turismo excessivo é “fundamentalmente uma questão sistêmica, não apenas um problema de preços”, e que a redução de turistas internacionais pode impactar a economia local.

Inovações Criativas: Seguro contra Chuva e Inteligência Artificial no Combate ao Turismo Excessivo

A ilha caribenha da Jamaica, após a destruição pelo furacão em 2025, lançou o “seguro contra chuva” em parceria com a JetBlue e a WeatherPromise. Pacotes até novembro oferecem reembolso em caso de “excesso de chuva”, incentivando visitas fora da alta temporada e promovendo atrações internas.

Na ilha espanhola de Maiorca, que enfrentou protestos contra o turismo, a inteligência artificial será integrada ao novo website. Uma plataforma alimentada por IA usará dados em tempo real para orientar turistas a horários alternativos e locais menos congestionados, promovendo atividades como visitas a vinhedos e produtores de azeite. O ministro do Turismo local, Guillem Ginard, explicou que a plataforma “permite antecipar os fluxos, melhorar a experiência dos visitantes e fortalecer a tomada de decisões”.

Copenhague, na Dinamarca, um dos destinos europeus em maior crescimento, experimenta o programa CopenPay. Iniciado em 2024, ele incentiva comportamentos sustentáveis, como coletar lixo em caiaques ou ir a museus de bicicleta, em troca de “pagamentos” por experiências. Mais de 30 mil visitantes participaram, com relatos de adoção de novos hábitos sustentáveis em casa, inspirando outras cidades como Berlim e a Normandia.

O Futuro do Turismo: Equilíbrio entre Visitantes e Comunidades Locais

A busca por um turismo mais sustentável e equilibrado é um desafio global. Medidas como as adotadas pelo Japão e pelos Estados Unidos demonstram a necessidade de ações firmes para lidar com o turismo excessivo.

A tecnologia, como a inteligência artificial em Maiorca e as ferramentas digitais em Kyoto, surge como aliada para gerenciar fluxos e melhorar a experiência do visitante. Iniciativas de incentivo ao bom comportamento, como em Copenhague, mostram que a conscientização e a recompensa podem moldar o comportamento turístico.

O diretor-gerente da Inside Travel Group, Tim Oakes, ressaltou a importância de enfrentar o turismo excessivo: “O turismo excessivo é uma das maiores ameaças enfrentadas pelo futuro do setor de viagens, que precisa encará-lo de frente”. O futuro do turismo dependerá da capacidade de encontrar um equilíbrio que beneficie tanto os visitantes quanto as comunidades locais, preservando os destinos para as próximas gerações.