Jamaica: O Paraíso Negado aos Seus Próprios Cidadãos, Onde Praias Viram Resorts Privados
A Jamaica, mundialmente conhecida por suas praias deslumbrantes de areia branca e águas azul-turquesa, enfrenta uma realidade paradoxal. Enquanto milhões de turistas buscam o refúgio paradisíaco, os próprios jamaicanos veem o acesso aos seus litorais cada vez mais restrito. Uma lei herdada da era colonial, datada de 1956, concede ao Estado o direito de transferir áreas costeiras para a propriedade privada, um dispositivo legal que tem levado à privatização em massa das praias da ilha.
Essa legislação, conhecida como Lei de Controle das Praias, permite que o governo venda trechos do litoral para empreiteiros e empresas estrangeiras, resultando na construção de resorts de luxo e condomínios privados. O resultado é a exclusão de pescadores, famílias e comunidades locais de locais que frequentam há gerações, gerando um sentimento de injustiça e perda cultural. A situação ganhou força com a formação do Movimento Ambiental pelo Direito por Nascimento às Praias da Jamaica (JaBEEM), que luta pela revogação da lei e pela garantia do acesso público.
A expansão do turismo, embora vital para a economia, intensificou o problema. Em 2024, a ilha recebeu um número recorde de visitantes, mas grande parte da receita gerada, cerca de 60%, não permanece no país. A proliferação de resorts all-inclusive, que concentram atividades de lazer e hospedagem em áreas exclusivas, agrava a inacessibilidade. Conforme informações divulgadas pelo JaBEEM, a batalha pela recuperação das praias está em curso, com cinco ações judiciais em andamento para garantir o direito dos jamaicanos ao seu litoral.
A Herança Colonial Que Sela o Acesso às Praias
A raiz do problema remonta a 1956, quando a Jamaica ainda era uma colônia britânica. A Lei de Controle das Praias foi promulgada, estabelecendo que os jamaicanos não possuem um direito público inato de nadar ou acessar as praias sem licença. Essa lei, que permanece em vigor, permite que o Estado conceda a propriedade do litoral a entidades privadas, muitas vezes sem consulta pública ou compensação adequada às comunidades afetadas. Essa prática tem transformado paisagens antes públicas em enclaves privados, distanciando os habitantes locais de seu patrimônio natural.
O Crescente Impacto dos Resorts e a Luta por Revogação
A expansão do setor hoteleiro, com a previsão de 10 mil novos quartos de hotel até 2030, intensifica a pressão sobre as áreas costeiras. Grandes empreendimentos como o Hard Rock Hotel e o Moon Palace The Grand, em Montego Bay, com centenas de apartamentos, prometem restringir ainda mais o acesso dos jamaicanos ao seu próprio litoral. O advogado Marcus Goffe, representante do JaBEEM, ressalta que a exclusão do acesso ao mar e às práticas de pesca tradicionais representa um ataque direto ao sustento e à identidade das comunidades.
Ações Judiciais e o Símbolo da Baía de Mammee
A luta pela democratização do acesso às praias jamaicanas ganhou contornos legais com a formação do JaBEEM em 2021. Atualmente, cinco ações judiciais buscam reverter a privatização de áreas icônicas, incluindo a Baía de Mammee. Este local, outrora um ponto de encontro para pescadores e famílias, foi vendido para a construção de um complexo residencial e resort de luxo, com uma parede de cimento agora impedindo o acesso público. A praia de Providence, a praia Bob Marley e áreas como o rio Little Dunn e a Lagoa Azul também são alvos de disputas legais, evidenciando a amplitude do desafio.
O Chamado por um Turismo Consciente e Inclusivo
Diante da crescente privatização, ativistas como Devon Taylor, fundador do JaBEEM, pedem aos turistas que reconsiderem suas escolhas de hospedagem. A recomendação é priorizar hotéis e estabelecimentos de proprietários locais que oferecem acesso a praias públicas e apoiam a economia regional. Opções como o hotel Charela Inn em Negril, os estabelecimentos em Treasure Beach, que utiliza produtos locais, e os hotéis boutique no litoral leste são exemplos de um turismo que pode coexistir com o respeito à cultura e ao acesso comunitário. A praia pública Bob Marley, um local de significado histórico e cultural, também enfrenta ameaças de empreendimentos de luxo, mas a comunidade local, representada por moradores como Camala Thomas, luta para preservar seu acesso e história.
A questão, segundo Monique Christie, coordenadora do JaBEEM, é simples: permitir que os jamaicanos desfrutem dos mesmos mares azuis que atraem visitantes de todo o mundo. A luta pela posse e acesso às praias da Jamaica é, em essência, uma batalha pela identidade, cultura e pelo direito fundamental de seus cidadãos ao seu próprio litoral.