Liderança iraniana busca apresentar acordo com EUA como vitória estratégica, mas enfrenta ceticismo interno sobre seus reais benefícios e impacto na vida cotidiana.

O governo do Irã está empenhado em retratar o recente memorando de entendimento negociado com os Estados Unidos não como uma concessão, mas como um triunfo da sua postura de resistência. No entanto, essa narrativa enfrenta dificuldades para se consolidar dentro do próprio país, onde a população lida com as consequências de uma guerra devastadora e uma economia sob forte pressão.

A tentativa de vender o acordo como uma conquista ocorre em um cenário político complexo, marcado por divisões internas. Enquanto alguns setores do regime e da população veem a situação como uma oportunidade para a diplomacia, outros a encaram como um momento propício para a mudança do regime, criando um ambiente de polarização.

Para muitos iranianos, a questão central não é a retórica de vitória, mas sim a esperança de que o acordo traga um alívio tangível para o custo de vida e diminua o temor de uma nova guerra. A forma como o acordo será implementado e seus resultados práticos determinarão sua real aceitação popular. Conforme informações divulgadas, a liderança iraniana tenta apresentar o acordo como uma vitória, mas a população busca resultados concretos.

Aliados do regime defendem o acordo como um avanço estratégico

Figuras proeminentes do governo iraniano, como Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento, têm defendido o acordo com os Estados Unidos. Qalibaf declarou que o Irã deu “um longo passo rumo à vitória final”, uma declaração que ganha peso por vir de um representante que não integra o campo moderado do presidente Masoud Pezeshkian.

O presidente Pezeshkian também descreveu o acordo como potencialmente transformador, afirmando que sua implementação plena poderia resolver muitos dos problemas do Irã e criar “um mundo diferente” tanto no país quanto no Oriente Médio. O apoio de Qalibaf sugere um respaldo de setores influentes do regime, incluindo possivelmente membros da Guarda Revolucionária Islâmica.

Teerã argumenta que EUA e Israel não atingiram seus objetivos principais

A liderança iraniana também busca apresentar o acordo como uma vitória ao argumentar que os Estados Unidos e Israel não alcançaram seus principais objetivos. Segundo essa visão, o Irã não foi forçado a se render, a República Islâmica não foi derrubada, seu programa nuclear não foi encerrado por ação militar, e seus laços com o Hezbollah não foram rompidos.

Em vez disso, o Irã permanece na mesa de negociações, com o Líbano incluído na estrutura do acordo e o alívio de sanções em discussão. Essa perspectiva é vista como uma demonstração de força e resiliência diante das pressões internacionais.

Críticas internas de linha-dura questionam os termos do acordo

Apesar da defesa oficial, vozes críticas dentro do Irã levantam sérias preocupações. Um deputado da ala linha-dura, que ocupa a vice-presidência da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, classificou a minuta do acordo como um documento que transformaria o Irã em uma “colônia dos EUA”.

Ele também acusou os negociadores de desrespeitarem uma orientação do líder supremo do Irã de não reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego marítimo comercial. Essa crítica interna, vinda de uma instituição responsável pela segurança nacional, tem um peso considerável e expõe as divisões sobre a aproximação com os EUA.

Por meses, grupos linha-dura e veículos de comunicação alinhados ao governo têm repetido o argumento de que os EUA não são um parceiro confiável. Eles apontam que os esforços diplomáticos estavam em andamento pouco antes do início da guerra, sugerindo que as negociações poderiam ter sido usadas como cobertura para ações militares. Para esses críticos, qualquer acordo com os EUA corre o risco de ser visto como uma política de apaziguamento.

Pressão econômica e busca por estabilidade moldam a decisão de negociar

A pressão econômica é um fator central na decisão do Irã de negociar. A guerra, as sanções, as restrições à navegação marítima, o acesso reduzido a mercados de petróleo e reservas em moeda forte, além da inflação elevada, criaram um fardo insustentável para o país e sua população.

Para muitas famílias iranianas, o sucesso do acordo não será medido por slogans, mas pela sua capacidade de conter a alta do custo de vida e afastar o risco de uma nova guerra. O vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, afirmou que o Irã não receberá dinheiro direto dos contribuintes americanos, mas poderá ter acesso a bilhões de dólares se cumprir seus compromissos e as sanções forem flexibilizadas, permitindo ao Irã apresentar o acordo como um caminho para investimentos.

Incertezas persistem sobre os detalhes e o futuro do acordo

Apesar do otimismo oficial, os detalhes do memorando de entendimento ainda não foram totalmente divulgados, e uma nova rodada de negociações está prevista para ocorrer na Suíça. Questões cruciais como o futuro do urânio enriquecido iraniano, o nível de enriquecimento permitido, os mecanismos de verificação, o alívio das sanções, o Estreito de Ormuz e a situação no Líbano permanecem pendentes.

Há também incertezas em relação a Israel. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu rejeitou relatos de que Israel deixará o sul do Líbano, e as forças israelenses afirmam que permanecerão no território libanês pelo tempo necessário. As divergências entre EUA e Israel sobre essas questões são politicamente úteis para o governo iraniano, mas tornam o acordo mais vulnerável.

Reações públicas refletem a divisão de opiniões sobre o acordo

As reações do público, conforme sugerido por feedbacks em plataformas como a BBC News Persa, indicam que a narrativa oficial de vitória tem sido recebida de forma desigual. Muitos iranianos expressam desconfiança e preocupação com a capacidade do governo de gerenciar o país sob o novo entendimento.

Outros, porém, mostram-se mais receptivos ao discurso do governo, vendo o acordo como uma demonstração de força que permitiu o alívio das sanções. Há também uma parcela que vê o acordo com cautela, como uma medida temporária necessária para um “respiro” e calma, esperando que ele permita a retomada da vida cotidiana com mais tranquilidade.