Hospitais do Irã em Crise: Médicos Relatam Sobrecarga e Falta de Recursos em Meio a Protestos Massivos
Médicos de dois hospitais distintos no Irã relataram à BBC que as unidades de saúde estão operando acima da capacidade, recebendo um fluxo constante de feridos em decorrência dos protestos em massa que varrem o país nas últimas semanas. A situação é descrita como crítica, com unidades especializadas em oftalmologia em Teerã enfrentando um colapso nos serviços de emergência.
Um paramédico de outro hospital confirmou a escassez de pessoal médico para atender ao elevado número de pacientes. A comunicação no país está severamente restrita, com um bloqueio quase total da internet desde a noite de quinta-feira (8/1), dificultando a obtenção e verificação de informações sobre a extensão da violência e o impacto nos serviços de saúde.
Esses relatos surgem em um contexto de forte repressão governamental. Grupos de direitos humanos indicam que pelo menos 50 manifestantes foram mortos desde o início dos atos, em 28 de dezembro. A BBC, assim como a maioria das organizações internacionais de notícias, tem sua atuação proibida dentro do Irã, o que agrava a dificuldade de acesso a informações confiáveis.
Hospital em Teerã em Situação de Crise
Um médico iraniano, que contatou a BBC utilizando internet via satélite Starlink, descreveu o Hospital Farabi, um centro oftalmológico de referência em Teerã, como estando em estado de crise. Os serviços de emergência estão sobrecarregados com o grande número de feridos, muitos com lesões graves.
Devido à emergência, internações e cirurgias não urgentes foram suspensas. A equipe médica foi convocada para reforçar o atendimento aos casos de emergência, evidenciando a gravidade da situação e a pressão sobre os recursos de saúde.
Escassez de Médicos e Feridos com Lesões Graves
Na cidade de Shiraz, no sudoeste do país, um médico enviou uma mensagem em vídeo e áudio à BBC relatando que o hospital local está recebendo um volume incomum de feridos. Ele enfatizou a insuficiência de médicos para lidar com a demanda crescente, detalhando que muitos dos feridos apresentam lesões de bala na cabeça e nos olhos, indicando o uso de força letal contra os manifestantes.
Dados de organizações de direitos humanos corroboram a violência. A Human Rights Activist News Agency (HRANA) reportou que, desde o início dos protestos, ao menos 50 manifestantes e 15 membros das forças de segurança foram mortos, com mais de 2.311 prisões. A Iran Human Rights (IHRNGO) aponta para 51 manifestantes mortos, incluindo nove crianças.
Reações Internacionais e Tensão Política
Líderes internacionais expressaram preocupação. O porta-voz do Secretário-Geral da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou que a ONU está “muito abalada com a perda de vidas” e relembrou o direito universal ao protesto pacífico. O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou o Irã para não reprimir os manifestantes, ameaçando com retaliação se vidas fossem perdidas.
Em contrapartida, o líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, adotou um tom desafiador, afirmando que a República Islâmica não recuará e que lidará com “elementos destrutivos”. O Irã, por sua vez, acusou os EUA de interferência em seus assuntos internos, o que os EUA negaram, chamando as declarações do ministro das Relações Exteriores iraniano de “delirantes”.
Oposição e Análise sobre o Futuro
Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã e uma figura proeminente da oposição, descreveu os protestos como “magníficos” e incentivou mais manifestações. Ele expressou confiança de que os atos levarão a República Islâmica “à ruína”. No entanto, o ex-embaixador britânico no Irã, Simon Gass, ponderou que uma mudança de regime não deve ser apressada, citando a falta de uma oposição organizada internamente.
Gass observou que os protestos atuais são distintos de outros anteriores, atraindo um “movimento de manifestantes muito mais amplo”. Ele atribuiu o levante à situação econômica “quase impossível de sobreviver” enfrentada por cidadãos comuns, destacando que a crise econômica é um fator crucial para a escala das manifestações.