Mídia estatal iraniana molda percepção da guerra com desinformação e propaganda, distorcendo fatos para o público interno.
A forma como a guerra é noticiada no Irã revela uma estratégia clara de controle informacional. A mídia estatal, principal fonte de notícias para a população, mescla fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos que visa reforçar a imagem de vitória e força do país.
A cobertura da guerra tem sido marcada por exageros significativos no número de baixas inimigas e pelo uso de manipulação digital, incluindo deepfakes, para glorificar as ações iranianas. Essa abordagem se intensifica em períodos de conflito, onde o acesso à informação independente é dificultado por bloqueios de internet e censura.
Conforme aponta análise da BBC e organizações de direitos humanos, o Irã figura entre os países mais repressivos em relação à liberdade de imprensa. Desde a revolução de 1979, a comunicação opera sob restrições severas, com a maioria dos veículos estrangeiros impedidos de atuar no país. A estratégia de disseminar “pequenas verdades” misturadas a informações falsas é uma tática recorrente.
Controle de Informação e a Narrativa Oficial
A mídia estatal iraniana, incluindo canais de TV e rádio, além de plataformas online como Instagram, Telegram e X, desempenha um papel crucial na disseminação da narrativa oficial. O acesso a essas plataformas frequentemente requer o uso de redes privadas virtuais (VPNs), especialmente quando a internet é cortada, isolando ainda mais a população.
Mahsa Alimardani, da organização Witness, destaca que o regime propaga uma narrativa de “vitória” e “força” de suas forças armadas. Essa estratégia se manifesta em reportagens que focam no sofrimento civil e em apelos por retaliação, enquanto minimizam os impactos em instalações militares e governamentais atingidas por forças adversárias.
Exageros e Manipulação Digital na Cobertura da Guerra
Veículos estatais iranianos relataram consistentemente que as forças iranianas causaram centenas de baixas em soldados americanos, inflacionando drasticamente os números reais. Por exemplo, em 3 de março, a agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária Islâmica, informou que 650 militares dos EUA foram mortos nos primeiros dois dias de conflito, citando um porta-voz da Guarda. Na época, o Pentágono confirmou o falecimento de seis soldados americanos, número que aumentou para treze até 13 de março.
O uso de novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA), tem sido fundamental para a disseminação de propaganda. Um vídeo divulgado pela Press TV, canal estatal em inglês, mostrava um prédio em chamas com a alegação de um ataque iraniano no Bahrein. No entanto, uma análise detalhada revelou anomalias, como carros se fundindo, indicando que o vídeo era falso e gerado por IA. Brett Schafer, do Institute of Strategic Dialogue, considera impressionante o uso de falsificações por grandes veículos de mídia estatal, sugerindo que se trata de uma característica da cobertura de guerra, não um erro.
Deepfakes e a Glorificação do Irã
O uso de deepfakes pela mídia estatal iraniana não se limita a enganar, mas também a glorificar o país. Imagens geradas por IA, muitas vezes irrealistas, são compartilhadas para promover a narrativa de poder e sucesso. Essa prática não é exclusiva do Irã, com a Casa Branca e Benjamin Netanyahu também utilizando conteúdo gerado por IA em suas comunicações.
Em um caso notório, a mídia estatal divulgou uma imagem aérea de um funeral coletivo, alegando a morte de mais de 160 crianças e funcionários em um ataque a uma escola. Opositores afirmaram que a imagem era gerada por IA, mas especialistas confirmaram sua autenticidade, geolocalizando-a em um cemitério próximo. Essa situação ilustra a complexidade da informação, onde o regime pode documentar vítimas civis para sua propaganda, sem que isso invalide a veracidade dos fatos documentados.
Ceticismo Necessário Diante da Cobertura Estatal
Diante da estratégia iraniana de misturar informações reais com desinformação, é fundamental manter um saudável ceticismo em relação às reportagens da mídia estatal. A organização Repórteres Sem Fronteiras classifica o Irã como um dos países mais repressivos em termos de liberdade de imprensa, evidenciando a necessidade de fontes de informação diversas e confiáveis.