A sombra da guerra no Irã e o destino nuclear da Coreia do Norte: como Kim Jong-un calcula sua sobrevivência em meio à incerteza global.
A recente escalada de tensões no Oriente Médio, com o ataque ao Irã, acende um alerta sobre a postura intervencionista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Analistas interpretam esses movimentos como um sinal de que a Casa Branca pode estender sua influência a outras regiões, levantando questionamentos sobre o futuro da Coreia do Norte sob o regime de Kim Jong-un.
A posse de armas nucleares pela Coreia do Norte surge como um fator crucial na equação de sobrevivência de Pyongyang. Enquanto o Irã, desprovido de tal arsenal, se tornou alvo de ações militares americanas, a capacidade nuclear norte-coreana impõe um cálculo de risco distinto para os Estados Unidos.
A estratégia de Kim Jong-un parece focada em manter um perfil discreto, evitando a retórica de desnuclearização que antes colocava o país no centro das atenções americanas. No entanto, os eventos recentes no Irã, onde um ataque ocorreu mesmo durante supostas negociações, servem como um doloroso aprendizado para Pyongyang: a posse de armas nucleares é vista como fundamental para a manutenção do regime. Conforme análise de Jeongmin Kim, diretora da consultoria Korea Risk Group, o ataque ao Irã, mesmo em meio a negociações, reforça a percepção norte-coreana de que a dissuasão nuclear é essencial.
Armas Nucleares: A Garantia de Sobrevivência do Regime Norte-Coreano
A lição mais valiosa extraída dos recentes acontecimentos globais, segundo analistas, é que a posse de armas nucleares se tornou um pilar fundamental para a sobrevivência do regime de Kim Jong-un. A Coreia do Norte pode utilizar a ameaça de seu arsenal nuclear, aliada aos avanços em mísseis balísticos, tanto como ferramenta de barganha em futuras negociações quanto como um impedimento direto a qualquer tentativa de intervenção militar americana, que teria que ponderar o risco de uma guerra nuclear.
Durante a gestão de Barack Obama, os EUA adotaram uma postura de “paciência estratégica”. Já o primeiro governo Trump buscou uma abordagem mais direta, culminando em um encontro histórico entre os líderes em Singapura em 2018. Contudo, o compromisso de “desnuclearização completa” da Península Coreana, firmado na ocasião, fracassou em pouco mais de um ano.
Sob Joe Biden, a Coreia do Norte perdeu prioridade na agenda de política externa americana. Ironicamente, nesse período, o arsenal norte-coreano foi significativamente fortalecido, desenvolvendo combustíveis sólidos e líquidos, e mísseis capazes de atingir o Japão e, segundo o próprio país, o território continental dos EUA, como aponta Jeongmin Kim.
Aliados Incertos e a Irreversibilidade Nuclear
Diante da possibilidade de uma pressão mais robusta por desnuclearização, Kim Jong-un buscaria apoio de seus aliados, Rússia e China. Contudo, a abstenção desses países no conflito iraniano e na Venezuela levanta dúvidas sobre a extensão de seu apoio. A especialista Jeongmin Kim observa que os líderes norte-coreanos percebem que, apesar dos tratados de defesa mútua, Rússia e China podem não ser capazes de oferecer proteção completa em um cenário de conflito direto.
Com a incerteza sobre o apoio de seus principais aliados, a desnuclearização parece uma opção cada vez mais distante para a Coreia do Norte. Em setembro, o país declarou sua posição como Estado nuclear como irreversível, classificando comentários americanos sobre o tema como “anacrônicos”. Andrei Lankov, professor de história e relações internacionais, corrobora essa visão, afirmando que “Pyongyang simplesmente não vai participar de nenhuma negociação sobre nada” que envolva abrir mão de suas armas nucleares.
Implicações para a Coreia do Sul e a Dissuasão Histórica
A crescente dependência da Coreia do Norte em seu programa nuclear para a sobrevivência do regime tem implicações significativas para a Coreia do Sul. Seul também enfrenta incertezas quanto à confiabilidade de seus aliados. A Estratégia de Defesa Nacional dos EUA mais recente considera a Coreia do Sul capaz de se defender por conta própria, limitando o apoio militar americano a casos críticos.
Um relatório do think tank 38 North destaca que a Coreia do Norte, em 1994, já utilizava sua capacidade de infligir danos massivos a Seul como forma de dissuadir os Estados Unidos de atacar suas instalações nucleares. A ameaça de retaliação norte-coreana contra Seul é considerada mais extrema do que a ameaça iraniana ao seu programa nuclear.
Um Cenário de Alerta e Encorajamento
Apesar do estado de alerta, uma tentativa de derrubar Kim Jong-un militarmente parece mais remota. A justificativa americana para a ação no Irã foi o apoio a Israel, o que, transposto para a Coreia do Norte, exigiria uma ofensiva de Seul para legitimar a intervenção americana. Contudo, o governo sul-coreano atual não considera um ataque inicial contra o Norte, a menos que haja um sinal iminente de ataque em massa, conforme aponta Jeongmin Kim.
O relatório do 38 North também sugere que a liderança norte-coreana precisa estar preparada para cenários de eliminação do governante. Ainda assim, a Coreia do Norte se sente encorajada pela resistência iraniana a uma força militar superior. Kim Sang-woo, ex-político sul-coreano, avalia que Pyongyang deve estar satisfeita com o desenrolar dos eventos, pois o Irã conseguiu colocar os EUA em uma posição difícil, longe de uma resolução rápida e enfrentando pressões internas e internacionais.