O conflito no Irã e a rápida repercussão no Brasil: uma análise da onda de discussões no WhatsApp
A manhã de sábado (28) marcou o início de uma operação militar conjunta entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, culminando na morte do líder supremo Ali Khamenei. A notícia, que se espalhou globalmente, gerou reações imediatas, com o Irã respondendo com mísseis e o fechamento do Estreito de Ormuz. No Brasil, enquanto o noticiário acompanhava os desdobramentos, as redes sociais, especialmente o WhatsApp, tornaram-se o palco principal para o processamento e a disseminação das informações.
Dados de monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp, realizados pela Palver, revelam um salto impressionante na discussão sobre o Irã. O tema, que antes representava menos de 1% das conversas, aumentou mais de 20 vezes no sábado, mantendo-se em alta no domingo. Essa intensa atividade permitiu identificar três eixos narrativos predominantes nas trocas de mensagens.
Conforme informação divulgada pela análise da Palver, a leitura das mensagens no WhatsApp permitiu identificar três grandes eixos narrativos sobre o conflito no Irã.
A direita: geopolítica, eleições e a foto de Alckmin
O maior eixo narrativo, concentrando mais da metade das mensagens analisadas, pertence à direita brasileira. Essa vertente interpretou o ataque ao Irã como uma extensão da disputa ideológica global. A morte de Khamenei foi celebrada em termos que mesclavam geopolítica e o cenário eleitoral de 2026, com mensagens como: “2026 está sendo um ano desastroso para Lula. Dois ditadores amigos dele se ferraram com Trump. Maduro preso e Khamenei morto.”
A nota técnica do Itamaraty, que condenou os ataques, foi reinterpretada como “Lula apoiando o Irã”. Uma postagem de Flávio Bolsonaro na rede X, com essa mesma leitura, migrou e se multiplicou em diversas versões nos grupos de WhatsApp. Um elemento que ganhou particular atenção foi a foto do vice-presidente Alckmin.
As mensagens recuperaram a presença de Alckmin na posse do presidente iraniano Pezeshkian, em julho de 2024. A imagem foi enquadrada sob a perspectiva de que ele seria “o único ainda vivo entre todos os presentes na foto”, transformando um evento diplomático legítimo em uma narrativa de cumplicidade com um regime em colapso.
O eixo imperialista e a crítica ao “necrojornalismo”
Cerca de um quarto das mensagens analisadas se concentrou no segundo eixo, que enquadrou o ataque como um ato de imperialismo. A pergunta recorrente era: “qual é o próximo alvo, Cuba? O Brasil, por causa das terras raras?”. Notas de solidariedade ao povo iraniano, como a do MST, foram compartilhadas, assim como textos lamentando o “vil atentado” contra Khamenei, comparando o episódio ao “sequestro de Maduro”.
O grande viral nesse eixo foi um artigo que reagiu a um editorial do Estadão intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. O texto criticou o jornalismo brasileiro, chamando-o de “necrojornalismo” e acusou o Estadão de “psicopatia travestida de análise geopolítica”. A manchete do Estadão se tornou um evento em si nos grupos, mobilizando a esquerda com uma intensidade que superou a própria ação militar.
Especulações, desinformação e o fim dos tempos
O terceiro eixo, menor em volume, concentrou-se em especulações sobre as consequências práticas do conflito e em um forte ruído informacional. O fechamento do Estreito de Ormuz gerou preocupação com o impacto no preço dos combustíveis, com mensagens como “O petróleo vai disparar” e “segunda-feira o petróleo vai estar nas alturas”.
Nesse vácuo de informação confiável, a desinformação prosperou. Uma das fake news divulgava que “O Presidente do Brasil acaba de fazer pronunciamento em cadeia nacional e convoca a população após ataques ao Irã”, o que não ocorreu. Esse mesmo vácuo alimentou uma camada mais difusa, onde o conflito se fundiu com profecias bíblicas, teorias de conspiração e um medo generalizado de colapso civilizatório.
Mensagens como “A terceira guerra é inevitável e será na nossa geração” surgiram, especulando sobre poeira radioativa no Brasil. Outras interpretações ligavam o ataque ao cumprimento dos segredos de Fátima, vendo em Trump um agente inconsciente de profecias bíblicas sobre o Oriente Médio.
O conflito como pano de fundo para disputas internas
O conflito no Irã, assim como a ação na Venezuela, foi interpretado pelos brasileiros como mais um episódio de uma disputa interna já em curso antes mesmo dos primeiros mísseis. Ao longo de 2026, eventos de magnitude semelhante podem acontecer, abrindo janelas para capturar atenção para pautas políticas domésticas, um mecanismo que ganha peso particular em um ano eleitoral. Em menos de 12 horas, o WhatsApp brasileiro havia construído três guerras paralelas, nenhuma delas exatamente a que estava ocorrendo em Teerã.