Governador do ES exonera delegado após investigação ligar juiz federal a empresário em esquema suspeito

O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), exonerou um delegado da Polícia Civil no final do ano passado. A exoneração ocorreu após a conclusão de uma investigação que identificou atividades suspeitas do juiz federal Macário Judice no estado. Outros policiais envolvidos na apuração também foram deslocados.

As mudanças aconteceram logo após a finalização de um inquérito que indiciou um empresário. O celular do empresário continha conversas que apontam para uma suposta irregularidade com o magistrado. Essas informações foram divulgadas inicialmente pela Folha de S.Paulo.

O Secretário de Segurança do Espírito Santo, Leonardo Damasceno, afirmou que nem ele nem o governador tinham conhecimento de diálogos envolvendo o juiz federal. Ele atribuiu as exonerações a um desgaste entre a equipe que atuou no inquérito e o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda. Conforme informações divulgadas pela Folha, a relação entre Casagrande e Macário Judice é alvo de um pedido de abertura de inquérito pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Operação Baest e os diálogos suspeitos

Os diálogos considerados suspeitos de Macário Judice foram encontrados pela Polícia Civil do Espírito Santo durante a Operação Baest, deflagrada em maio de 2025. A operação visava desarticular o suposto “braço financeiro” da facção criminosa Primeiro Comando de Vitória.

Um dos alvos da operação foi o empresário Adilson Ferreira. Em seu celular, foram encontradas conversas com Macário Judice que sugeriam a atuação do magistrado em licitações dentro da gestão do governador Casagrande. O relatório final da operação, concluído em 24 de setembro, indiciou Ferreira por suspeita de lavagem de dinheiro.

Mudanças na Polícia Civil e a versão oficial

Após a conclusão do inquérito, quatro delegados que assinaram o documento foram removidos de seus cargos. O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, realizou diversas movimentações. O delegado Romualdo Gianordoli Neto foi exonerado do cargo de subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança em 24 de outubro.

Romualdo Gianordoli afirmou que sua exoneração ocorreu devido ao avanço da Operação Baest sobre “um empresário da Serra”, em referência a Ferreira. Ele declarou que o indivíduo em questão tem contatos com pessoas de alto escalão, incluindo o governo e a Polícia Civil, que ele considera “bastante corroída”.

O secretário Leonardo Damasceno, por outro lado, declarou que as exonerações ocorreram por desgastes com o delegado-geral e por atuação política do ex-subsecretário. Ele negou que as movimentações tivessem relação com os diálogos suspeitos de Macário. Segundo Damasceno, Romualdo é alvo de uma investigação na Corregedoria por “apropriação de dados da Polícia Civil”.

Investigação da PF e a relação com o governador

A Polícia Federal abriu um pedido de inquérito ao STF para investigar a relação entre o governador Renato Casagrande e o juiz federal Macário Judice. A investigação, que é um desdobramento de apurações sobre a atuação de Macário no Rio de Janeiro, identificou conversas no celular do juiz que poderiam indicar uma troca de favores criminosa entre os dois.

Macário Judice está preso preventivamente no Rio de Janeiro sob suspeita de vazar informações de investigações ao então presidente afastado da Alerj, Rodrigo Bacellar. Em nota, o governador Casagrande afirmou que o diálogo mantido com o magistrado era “institucional e republicano”.

Defesa do empresário e do juiz

O advogado de Adilson Ferreira, Douglas Luz, classificou as acusações contra seu cliente como “infundadas com rubrica de interesse político e de autopromoção”. Ele afirmou que os diálogos entre o empresário e o magistrado não contêm “qualquer referência a atos ilícitos” e que o Ministério Público ainda não concordou com as imputações, pois não houve oferecimento de denúncia.

A reportagem tentou contato com o advogado de Macário Judice, Fernando Fernandes, mas não obteve retorno.