Gisèle Pelicot encontra novo amor e esperança após reviver o pesadelo de estupros coletivos e o julgamento de seu ex-marido e 50 homens.

Gisèle Pelicot, a mulher que se tornou o centro de um dos maiores julgamentos de estupro na França, compartilhou sua história de superação em uma entrevista emocionante à BBC. Ela revelou como descobriu que seu marido a drogava para que dezenas de homens pudessem estuprá-la, um ato que a deixou “devastada pelo terror”.

Aos 73 anos, Pelicot descreveu a descoberta como um “tsunami” que a fez sentir “algo explodir” dentro de si. A coragem de Gisèle em expor a verdade, abrindo mão do anonimato, permitiu que o caso ganhasse repercussão e que outros homens fossem condenados junto com seu ex-marido, Dominique Pelicot, sentenciado a 20 anos de prisão.

Em sua narrativa, ela detalha não apenas a violência sofrida, mas também o processo de cura, a reconstrução de laços familiares e, surpreendentemente, a redescoberta do amor. A entrevista, que antecede o lançamento de suas memórias “Um Hino à Vida”, oferece um vislumbre da força humana diante da adversidade. Conforme relatado pela BBC, a jornada de Pelicot é um testemunho de resiliência e esperança.

O Início da “Descida ao Inferno”

Tudo começou quando Dominique Pelicot foi intimado pela polícia por filmar secretamente mulheres em um supermercado. Na delegacia, a conversa com um policial tomou um rumo inesperado. Questionada sobre seu marido, Gisèle o descreveu como um “cara ótimo” e negou qualquer envolvimento em troca de casais. No entanto, a revelação veio com a exibição de fotos de uma mulher desacordada na cama, que ela não reconheceu inicialmente.

A polícia informou a Gisèle que ela havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens, com seu marido gravando e catalogando os atos em um disco rígido. O choque foi imenso, e ela descreve o momento em que usou a palavra “estupro” pela primeira vez após cinco horas de interrogatório como um divisor de águas.

O Impacto na Família e a Busca por Respostas

Comunicar a terrível descoberta aos seus três filhos, David, Caroline e Florian, foi, segundo Gisèle, a experiência mais difícil de sua vida. Ela relembra o grito quase desumano de sua filha Caroline ao saber da verdade sobre o pai. Os filhos, abalados, ajudaram a destruir pertences da família na tentativa de apagar a memória do pai.

A relação com a filha Caroline foi particularmente abalada, pois fotos dela dormindo foram encontradas no laptop do pai. Caroline suspeita que também foi drogada e estuprada, mas a falta de provas impediu uma acusação formal. Gisèle expressou o desejo de visitar o ex-marido na prisão para obter respostas sobre o que ele fez com a filha e sobre um caso de assassinato em que ele é investigado.

A Coragem de Abrir o Julgamento e a Redescoberta do Amor

A decisão de Gisèle Pelicot de abrir o julgamento para o público e a imprensa, renunciando ao anonimato garantido por lei, foi um ato de coragem sem precedentes. Ela sentiu que um julgamento a portas fechadas seria uma “dupla punição” para as vítimas. Essa escolha inspirou outras mulheres e demonstrou sua força interior.

Em 2023, em sua nova moradia na tranquila Île de Ré, Gisèle conheceu Jean-Loup, um viúvo. O relacionamento floresceu rapidamente, descrito por ela como um “golpe de sorte” e um amor “como adolescentes, quando nenhum de nós esperava”.

“Veja, a vida sempre revela belas surpresas”, declarou Gisèle, com um sorriso. “Ela trouxe muito colorido para as nossas vidas”. A sobrevivente, que passou por anos de abuso e humilhação, agora encontra paz e esperança, provando que mesmo após o mais profundo sofrimento, é possível “escolher andar na direção do bem” e encontrar a felicidade.