O sonho de uma utopia em Galápagos se transformou em pesadelo, com mortes inexplicáveis e desaparecimentos que ecoam até hoje.
Em 1929, o médico alemão Friedrich Ritter e sua amante, Dore Strauch, deixaram a Alemanha em busca de um novo começo. Eles sonhavam em criar uma sociedade utópica em Floreana, uma ilha remota do arquipélago de Galápagos, inspirados pelas ideias do filósofo Friedrich Nietzsche.
O casal buscava escapar da civilização e viver em harmonia com a natureza, longe das convenções sociais. A história deles, apelidada pela imprensa da época de “Adão e Eva”, atraiu a atenção de outros aventureiros, mas o paraíso logo deu lugar ao caos.
A chegada de novos moradores, incluindo uma autoproclamada baronesa austríaca e seus dois amantes, desestabilizou a paz. O que se seguiu foi uma espiral de conflitos, ciúmes e disputas de poder, culminando em uma série de eventos trágicos. Conforme relatado pela escritora norte-americana Abbott Kahler em seu livro “Eden Undone: A True Story of Sex, Murder, and Utopia at the Dawn of World War II”, a busca por um paraíso se tornou um palco de tragédias.
O início da utopia e a atração pela ilha remota
Friedrich Ritter, fascinado pela ideia do “super-homem” de Nietzsche, viu em Floreana o local ideal para implementar sua visão de uma vida alternativa. Dore Strauch, por sua vez, desejava se livrar de um casamento conservador. A ilha, com sua fonte de água doce e ausência de habitantes permanentes, parecia o refúgio perfeito para seus ideais.
Antes de partirem, Ritter e Dore tomaram uma medida drástica, removendo seus próprios dentes para evitar problemas futuros, utilizando dentaduras de aço. Ao chegarem, começaram a construir sua nova vida, um feito que chamou a atenção mundial e inspirou outros a seguir seus passos.
A chegada de novos moradores e o aumento das tensões
Em 1932, o casal alemão Heinz e Margret Wittmer também se mudou para Floreana. Heinz buscava um clima mais saudável para seu filho adolescente, enquanto Margret sonhava em ter filhos. A convivência entre os casais, no entanto, não foi pacífica. Dore via Margret como ingênua por querer ter um bebê em um local tão isolado, e Margret considerava Dore pretensiosa por citar Nietzsche.
O ponto de virada ocorreu com a chegada da excêntrica baronesa Eloise von Wagner Bosquet, conhecida como “Calcinhas Loucas”. Movida por fama e riqueza, ela almejava transformar Floreana em um destino luxuoso, chocando os ideais utópicos originais. A baronesa rapidamente semeou discórdia, provocando conflitos entre seus amantes e roubando recursos essenciais dos outros moradores, como o leite do bebê dos Wittmer.
Mistérios, desaparecimentos e mortes em Floreana
A tensão atingiu o ápice em 27 de março de 1934, com o misterioso desaparecimento da baronesa e de um de seus amantes, Robert Philippson. As versões sobre o ocorrido divergem: Margret Wittmer relatou que a baronesa partiu em um navio para o Taiti, mas investigações posteriores não encontraram registros de tal embarcação. Dore Strauch, por outro lado, mencionou ter ouvido um grito na noite anterior, sem avistar navios.
O segundo amante da baronesa, Rudolf Lorenz, deixou a ilha com destino a São Cristóvão, mas seu corpo mumificado foi encontrado em Marchena, em uma direção oposta à que ele alegou ter seguido. Pouco tempo depois, Friedrich Ritter adoeceu gravemente após consumir frango, vindo a falecer. Relatos posteriores sugeriram que Ritter, um suposto vegetariano, pode ter sido vítima de envenenamento, com indícios de abuso contra Dore, que serviu o alimento.
O legado de Floreana e a impossibilidade da utopia
Após a morte de Ritter, Dore Strauch retornou à Alemanha e publicou o livro “Satanás Veio ao Éden”, onde descreveu sua experiência, afirmando que as ilhas pareciam um lugar onde “os seres humanos não são tolerados”. Heinz e Margret Wittmer, por sua vez, permaneceram em Floreana, construindo um legado familiar que perdura até hoje com o hotel que fundaram.
A história de Floreana serve como um sombrio lembrete de que, como aponta a escritora Abbott Kahler, “cada pessoa naquela ilha tinha uma definição diferente de ‘utopia’. E, por causa das falhas humanas, qualquer tipo de utopia é impossível”. A ilha, que prometia ser um paraíso, tornou-se um símbolo dos perigos da ambição humana e da fragilidade dos sonhos perfeitos.