Oropouche: Verdadeiro Alcance da Doença no Brasil é Subestimado, Revelam Pesquisadores
A febre do Oropouche, transmitida pelo mosquito maruim, tem um alcance muito maior no Brasil do que os dados oficiais indicam. Um novo estudo aponta que a incidência real da doença pode ser até 200 vezes superior aos casos notificados, sugerindo que aproximadamente 2% da população brasileira já teve contato com o vírus.
A pesquisa, realizada por um consórcio de universidades brasileiras e estrangeiras, utilizou dados sorológicos para estimar a extensão real das infecções. Os resultados indicam que a doença, que provoca sintomas semelhantes aos da dengue, pode estar circulando de forma silenciosa, afetando uma parcela significativa da população sem que estes sequer saibam.
O estudo revisou dados de 1960 a 2025, calculando que 5,5 milhões de pessoas no Brasil foram infectadas pelo Oropouche. A descoberta levanta preocupações sobre a capacidade dos sistemas de saúde em monitorar e controlar a disseminação da febre, especialmente com a emergência de novos ciclos urbanos da doença. Conforme informação divulgada pelos pesquisadores do consórcio, formado pela University of Kentucky, USP, Unicamp e Hemoam.
Oropouche: Um Gigante Submerso na Saúde Pública Brasileira
A febre do Oropouche, transmitida pela picada do mosquito Culicoides paraensis, popularmente conhecido como maruim ou mosquito-pólvora, tem se mostrado um desafio para a vigilância em saúde. Ciclos silvestres da doença são bem conhecidos, mas a observação de ciclos urbanos em capitais é um fenômeno recente e preocupante, segundo explica Vanderson Sampaio, diretor de Operações do Instituto Todos pela Saúde.
A falta de contato prévio da maior parte da população com o vírus sugere um potencial de expansão. “Não sabemos ainda qual a quantidade de casos graves dessa doença nem condições de saber agora, pois temos um número muito baixo de casos registrados”, afirmou Sampaio, destacando a dificuldade em dimensionar o impacto real da febre.
A pesquisa analisou amostras de sangue coletadas em três momentos distintos entre novembro de 2023 e novembro de 2024. Os resultados sorológicos permitiram afirmar que o alcance do surto de 2023-2024 em Manaus foi de cerca de 12,5%, similar ao registrado em 1980-1981, chegando a quase 15% no estado do Amazonas em ambos os períodos.
Manaus: Epicentro da Disseminação e a Complexidade da Subnotificação
Manaus, a capital do Amazonas, desponta como um importante polo de dispersão da febre do Oropouche na região amazônica. Com uma população de aproximadamente 2 milhões de habitantes e forte conectividade, inclusive aérea, a cidade contribui significativamente para a expansão da doença para outros estados, como Espírito Santo e Rio de Janeiro, que registraram impactos notáveis em 2024.
A discrepância entre os casos confirmados e o número real de infecções pode ser atribuída a fatores como o acesso limitado a serviços de saúde na bacia amazônica. Além disso, estima-se que uma grande proporção de casos seja assintomática ou leve, características que até então careciam de evidências claras e que dificultam o diagnóstico e a notificação.
A década atual já registrou mais de 30 mil casos na América Latina e Caribe, impulsionados pela circulação de uma nova variante do vírus. Este cenário reforça a tese de uma subnotificação notável em todos os serviços de saúde da região, um alerta para a necessidade de aprimorar as estratégias de vigilância.
Desafios no Diagnóstico e Controle do Oropouche
A febre do Oropouche pode apresentar um quadro febril semelhante ao da dengue e outras arboviroses, complicando a identificação e o tratamento corretos. Os casos graves, quando diagnosticados, podem evoluir para doenças neurológicas, complicações materno-fetais e até mesmo levar à morte, ressaltando a importância de um diagnóstico preciso.
Atualmente, não existem vacinas licenciadas nem antivirais específicos para a febre do Oropouche. Pesquisas em andamento buscam desenvolver novas abordagens terapêuticas, como estudos sobre a eficácia de acridonas. A boa notícia é que anticorpos adquiridos há décadas ainda demonstram capacidade de neutralizar a cepa recente do vírus, sugerindo uma imunidade de longa duração.
Um segundo estudo publicado pelo mesmo grupo destaca a predominância do vírus em áreas rurais e florestais, com casos de transmissão por mosquitos urbanos sendo uma minoria. Isso indica que estratégias de controle vetorial focadas em mosquitos como o Aedes aegypti podem ser insuficientes, exigindo esforços adicionais de vigilância em áreas de contato com a mata degradada para prever e mitigar futuros surtos.