Especialistas alertam que declarações de Trump sobre a Groenlândia já fragilizam a OTAN, mesmo sem ataque militar.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), acostumada a traçar planos de defesa contra ameaças externas, agora se vê diante de um desafio incomum: a possibilidade de uma ação unilateral de um de seus membros mais importantes, os Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump. A intenção declarada de adquirir a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, tem gerado ondas de choque na aliança, expondo uma fragilidade interna que especialistas consideram mais perigosa do que qualquer confronto com adversários tradicionais.
A estratégia de silêncio adotada pelo secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, diante das declarações agressivas de Trump, é vista por muitos como insustentável a longo prazo. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, já alertou que um ataque militar dos EUA a outro país membro da aliança poderia significar o fim da própria OTAN e da segurança estabelecida desde o pós-Segunda Guerra Mundial. A retórica, por si só, já causa danos significativos.
O impacto das falas de Trump sobre a Groenlândia não pode ser subestimado. Patrik Oksanen, membro sênior do Fórum do Mundo Livre de Estocolmo, observa que essa discussão é uma grande vitória para o presidente russo Vladimir Putin, ecoando os desejos da era soviética de desestabilizar a aliança ocidental. A situação na Groenlândia, somada a outras declarações sobre a Venezuela e questionamentos sobre a soberania dinamarquesa por assessores de Trump, intensifica a preocupação no extremo norte.
Ameaça interna: um manual inexistente para a OTAN
Diferentemente dos planos detalhados para se defender de ataques externos, a OTAN não possui um protocolo para lidar com a pressão ou ameaças vindas de seus próprios membros. Ed Arnold, ex-funcionário do quartel-general militar da OTAN, ressalta que a aliança é construída sobre valores e confiança, e o simples fato de chegar a este ponto já enfraqueceu a organização. A ideia de debater a questão internamente, com 32 aliados reunidos enquanto a ameaça parte de um deles, é vista como negativa.
Posicionamento firme: a necessidade de ação e não de apaziguamento
Alguns observadores sugerem que a solução poderia envolver o envio de tropas por aliados da OTAN para a Groenlândia, demonstrando seriedade na defesa e tornando desnecessário qualquer movimento unilateral dos EUA. Steven Everts, diretor do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, concorda que os europeus devem levar a segurança do Ártico a sério e preencher eventuais lacunas. Contudo, ele alerta que essa ação não deve ser vista como uma forma de apaziguar Trump, pois tentativas anteriores de ceder não funcionaram.
“Isto não é um treino, pessoal. Não é algo que se possa simplesmente esperar que passe e melhore”, afirma Everts. Ele defende medidas enérgicas para manter a posição, não de forma agressiva, mas com clareza sobre o futuro da Groenlândia e da própria aliança. Anders Vistisen, membro do Parlamento Europeu, corrobora essa visão, pedindo o fim dos “jogos diplomáticos” e tentativas de apaziguamento, como ceder em questões econômicas ou de exploração de recursos na Groenlândia.
Pressão econômica e unidade europeia como resposta
Enquanto Vistisen defende uma comunicação franca e direta com Washington, Per Clausen, outro membro dinamarquês do Parlamento Europeu, sugere que a pressão econômica pode ser mais eficaz. Ele propôs a suspensão da aprovação de acordos comerciais favoráveis aos EUA até que a questão da Groenlândia seja resolvida pacificamente. “Temos muitas coisas que poderíamos fazer que prejudicariam muito os EUA, se você estiver falando sobre economia”, declarou Clausen, enfatizando que a Dinamarca não está isolada e que a Europa precisa demonstrar disposição para agir, e não apenas falar.
Um sinal encorajador em meio à tensão
Apesar da gravidade da situação, um sinal encorajador surgiu durante uma reunião em Paris sobre a Ucrânia. Líderes da Alemanha, Itália, Polônia, Espanha e Reino Unido uniram-se à Dinamarca para afirmar que “cabe à Dinamarca e à Groenlândia, e somente a elas, decidir sobre assuntos relativos à Dinamarca e à Groenlândia”. Essa declaração conjunta, feita antes de um encontro com emissários americanos, demonstrou a seriedade com que os líderes europeus encaram a ameaça. No entanto, para Patrik Oksanen, se os EUA insistirem em sua abordagem, o fim da OTAN seria o menor dos problemas, significando nada menos que o “fim dos tempos como os conhecemos”.