Facções criminosas se espalham por mais da metade dos municípios do Amazonas, aponta estudo recente.

Um levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela um cenário preocupante no estado do Amazonas, onde facções criminosas expandiram sua atuação para pelo menos 25 dos 62 municípios. A pesquisa, publicada em dezembro de 2025, detalha a presença de grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), além de organizações locais e internacionais.

O estudo, intitulado “Experiências promissoras de prevenção e enfrentamento ao crime e à violência na Amazônia”, combinou dados públicos, informações de organizações sociais e pesquisas acadêmicas. O objetivo foi contextualizar o aumento da violência e entender a dinâmica das facções na região amazônica, que é estratégica para o tráfico de drogas.

De acordo com o levantamento, o Comando Vermelho (CV) demonstra uma presença mais ampla, atuando em 19 cidades, muitas vezes de forma exclusiva. Já o Primeiro Comando da Capital (PCC) tem sua atuação concentrada em Coari, e o estudo aponta uma perda de abrangência do PCC no estado, especialmente após o CV ter assumido o controle de áreas antes dominadas pelo grupo paulista em Manaus.

Comando Vermelho Lidera Expansão, PCC Perde Espaço no Amazonas

O Comando Vermelho (CV) é a facção com maior presença no estado, atuando em 19 municípios. O estudo destaca que o PCC, por sua vez, tem sua atuação restrita a Coari. Essa diminuição da força do PCC no Amazonas é atribuída, em parte, à recente tomada de controle de uma área em Manaus pelo CV, que antes pertencia à facção paulista.

Grupos Internacionais e o Domínio das Rotas do Tráfico na Amazônia

Em municípios como Japurá e São Gabriel da Cachoeira, ambos localizados ao norte do Amazonas, a presença de grupos criminosos colombianos foi identificada. O Estado Maior Central (EMC) atua em Japurá, enquanto a facção Ex-Farc Acácio Medina está presente em São Gabriel da Cachoeira. Ambas as organizações operam em parceria com o Comando Vermelho, fornecendo maconha e cocaína para o tráfico na região.

O estudo enfatiza a importância estratégica do Amazonas para o controle das rotas do narcotráfico, que se originam na Colômbia e no Peru. A vasta extensão territorial e a malha fluvial do estado facilitam o transporte de entorpecentes, com o CV buscando garantir o domínio sobre essas vias de escoamento, utilizando rios, furos e igarapés.

Alto Solimões: Epicentro da Disputa e Vulnerabilidade Social

A região do Alto Solimões, no sudoeste amazonense, se consolidou como um ponto crucial para o tráfico internacional de drogas na Amazônia. A área é palco de disputas intensas entre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Essa região abriga cerca de 281 mil habitantes, com uma expressiva população indígena, e apresenta altos índices de vulnerabilidade social.

Mais de 80% da população local está inscrita no Cadastro Único (CadÚnico), e 64,7% recebem o Bolsa Família, evidenciando uma forte dependência de programas sociais. A taxa de ocupação de pessoas com mais de 14 anos é de apenas 12,8%, quatro vezes menor que a média nacional. Além disso, 56% da área da região está dentro de Terras Indígenas já homologadas.

Tabatinga, que faz fronteira aberta com Letícia, na Colômbia, concentra a maior parte da população e registrou um alto índice de mortes violentas em 2024. Embora autoridades relatem uma redução nos confrontos após a consolidação da hegemonia do CV na área, a violência se tornou mais seletiva, com expansão dos pontos de consumo de drogas. Benjamin Constant, Atalaia do Norte, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Tonantins, Fonte Boa e Jutaí também são citados como pontos importantes nas rotas do tráfico, com diferentes dinâmicas de atuação das facções e desafios de presença estatal.

A fronteira entre Tabatinga e Letícia é completamente aberta, facilitando o transporte de drogas, armas e valores. Localidades peruanas e colombianas produzem a matéria-prima da droga, que converge para o Rio Solimões, seguindo para Manaus e outras regiões do país. A logística do tráfico se beneficia da confluência geográfica e da porosidade da região, que funciona como porta de entrada para a pasta base produzida na Colômbia e no Peru.