EUA e Irã Preparam-se para Negociações de Paz Históricas em Islamabad

Em meio a um cenário de tensões e um cessar-fogo precário, os Estados Unidos e o Irã se preparam para iniciar uma nova rodada de negociações de paz em Islamabad, Paquistão. O objetivo é ambicioso: encontrar um caminho para encerrar o conflito que assola o Oriente Médio e estabilizar a região.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, confirmou que as conversas terão início nesta sexta-feira (10), na capital do país asiático. Foi justamente por meio de Sharif que Washington e Teerã concordaram em pausar os combates por duas semanas, um acordo anunciado na última terça-feira (7).

A delegação americana, liderada pelo vice-presidente JD Vance, tem chegada prevista para o sábado (11). A comitiva também contará com a presença de Steve Witkoff, enviado especial de Donald Trump para o Oriente Médio, e Jared Kushner, genro do ex-presidente, ambos com histórico em negociações diplomáticas. Conforme informação divulgada pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, as duas partes se reunirão a partir desta sexta-feira (10) para conversas na capital do país asiático.

Trégua Frágil e Divergências em Meio às Negociações de Paz

A trégua estabelecida, apesar de ser um passo crucial, tem se mostrado extremamente frágil e repleta de incertezas. Relatos de violações e um fechamento “de facto” do Estreito de Ormuz lançam sombras sobre o processo de paz. O acordo previa que EUA e Israel pausassem os ataques ao território iraniano em troca da reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã.

No entanto, na manhã de quarta-feira (8), ataques foram registrados de ambos os lados. O Irã fechou Ormuz após Israel realizar um ataque ao Líbano, onde atua o grupo Hezbollah, aliado de Teerã. Israel argumentou que o front libanês não estava incluído no acordo de cessar-fogo, uma declaração que contradiz a interpretação de Sharif, que entende que os combates em território libanês também deveriam ser interrompidos.

As autoridades libanesas afirmam que o ataque israelense resultou na morte de mais de 250 pessoas, a maioria civis, representando o bombardeio mais pesado sofrido pelo país em um único dia em sua história. Em contrapartida, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Saeed Khatibzadeh, declarou na quinta-feira (9) que o Estreito de Ormuz estava aberto, mas com restrições de passagem, alertando para o risco de minas navais na região.

O Programa Nuclear Iraniano e os Pontos de Discórdia

Um dos principais focos de tensão nas negociações de paz entre EUA e Irã reside no programa de enriquecimento de urânio iraniano. O Irã apresentou um plano de dez pontos como condição para o fim da guerra, que foi recebido com reações distintas. Donald Trump classificou a proposta inicialmente como uma “base viável”, mas posteriormente indicou que apenas “alguns pontos” seriam aceitáveis.

Por outro lado, a Casa Branca considerou o plano de dez pontos “inaceitável” e descartou-o, afirmando que as negociações se baseariam em uma nova proposta iraniana, descrita como “mais condensada e razoável”, cujo conteúdo não foi divulgado. Autoridades iranianas insistem na validade da lista original.

As divergências se estendem à questão do enriquecimento de urânio. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã alegou que Washington concordou com o termo, enquanto Trump negou, prometendo “escavar” todo o urânio enriquecido do solo iraniano. A Associated Press reportou inconsistências nas versões do acordo, com a versão persa mencionando “aceitação do enriquecimento”, algo ausente nas versões em inglês.

O enriquecimento de urânio é um tema sensível devido à preocupação ocidental de que o Irã busque desenvolver armas nucleares. O processo aumenta a concentração do isótopo U-235, que, em níveis de cerca de 90%, pode ser utilizado na fabricação de bombas atômicas. O urânio com baixa concentração (3% a 5%) é usado em usinas nucleares, enquanto níveis acima de 20% são para pesquisa.

O Líbano e a Complexidade do Cessar-Fogo

A inclusão do Líbano no acordo de cessar-fogo é outro ponto de discórdia significativo nas negociações de paz. O Paquistão e o Irã afirmam que a trégua abrange o Líbano, proibindo ataques ao país. Contudo, Israel e os EUA declararam que o Líbano e o combate ao Hezbollah estão fora do escopo do acordo.

Nesta quarta-feira, forças israelenses realizaram o maior ataque ao território libanês desde o início da guerra, com bombardeios em Beirute e no sul do país, resultando em 254 mortos e mais de 830 feridos, segundo autoridades libanesas. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou nesta quinta-feira (9) que instruiu Israel a iniciar negociações de paz com o Líbano, que incluiriam o desarmamento do Hezbollah. Segundo a Reuters, esses diálogos ocorrerão separadamente nos EUA, a partir da próxima semana.