Dólar subiu pouco mais da metade da inflação desde 1994, aponta análise

Desde a implementação do Plano Real, em julho de 1994, o comportamento do dólar e da inflação no Brasil apresentou uma dinâmica interessante. Uma análise detalhada revela que a valorização da moeda norte-americana foi significativamente inferior ao acúmulo de preços na economia brasileira ao longo dessas quase três décadas.

O levantamento, conduzido pelo economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, compara a evolução do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com a cotação do dólar no mesmo período. Os resultados indicam que, embora o real tenha perdido valor frente ao dólar, a perda de poder de compra dos brasileiros devido à inflação foi ainda mais acentuada.

Esses dados desafiam a percepção comum de que o dólar sempre se valoriza mais que a inflação. A seguir, vamos detalhar os números e entender o que isso significa para o seu bolso e para a economia do país, conforme informações divulgadas pela Austin Rating.

A inflação brasileira superou a alta do dólar

De acordo com o estudo de Alex Agostini, até março de 2026, o IPCA acumulou uma alta expressiva de 775%. Em contrapartida, no mesmo intervalo, o dólar avançou 416%. Em julho de 1994, 1 dólar americano (US$ 1) equivalia a R$ 1,00. Atualmente, a cotação está em R$ 5,16.

Isso significa que a valorização do dólar corresponde a pouco mais da metade da inflação registrada desde o início do Plano Real. De forma simplificada, enquanto o dólar se multiplicou por aproximadamente 5 vezes, os preços da economia brasileira se elevaram quase 9 vezes nesse período. Isso demonstra um descompasso entre a perda do poder de compra interno e a desvalorização da moeda estrangeira.

Simulação do valor do dólar pela inflação

Para ilustrar a diferença, o levantamento projeta um cenário hipotético. Caso o valor de US$ 1 de julho de 1994 fosse corrigido apenas pela inflação acumulada no Brasil até março de 2026, essa quantia alcançaria o equivalente a R$ 8,74. Essa simulação considera a Ptax, taxa média de câmbio calculada pelo Banco Central, ao final da primeira semana de março de 2026.

A comparação evidencia que a inflação interna teve um impacto muito maior no poder de compra do brasileiro do que a variação cambial. O estudo, portanto, foca em como a inflação afetou o valor do dólar como se fosse um produto, desconsiderando fatores externos que influenciam diretamente a taxa de câmbio.

Comparativo com a inflação nos Estados Unidos

A análise também compara a inflação brasileira com a norte-americana. Desde o Plano Real, o Índice de Preços ao Consumidor dos EUA (CPI) avançou 122%, um índice seis vezes menor que a inflação registrada no Brasil. Se o valor inicial de US$ 1 fosse corrigido apenas pelo CPI americano, ele teria hoje um poder de compra equivalente a cerca de US$ 2,22.

Nesse cenário hipotético, considerando o câmbio de R$ 5,16, o valor do dólar corrigido pela inflação americana seria próximo de R$ 11,45. A diferença entre o valor atual e este, calculada com base no poder de compra, é ainda mais gritante. Isso reforça o impacto da inflação doméstica na perda de valor do real.

O diferencial inflacionário e seu impacto no câmbio

Considerando o diferencial inflacionário entre Brasil e Estados Unidos desde 1994, o dólar poderia estar significativamente mais caro. Se o câmbio tivesse refletido integralmente essa distância de preços, a moeda americana poderia atingir aproximadamente R$ 19,40. Este seria o valor necessário para manter o mesmo poder de compra de 32 anos atrás.

É importante notar que o levantamento de Alex Agostini trata o dólar como uma mercadoria, corrigindo seu valor pela inflação. Essa metodologia desconsidera outros fatores cruciais que afetam a cotação do dólar, como o risco-país, o fluxo de capitais, a política monetária e a demanda por moeda estrangeira. A taxa efetiva real de câmbio é a forma mais comum entre economistas para analisar o dólar corrigido pela inflação, ajustando a cotação histórica pela variação de preços e identificando períodos em que o dólar esteve mais caro ou mais barato.