Desinvestir: A Estratégia Surpreendente Que Gera Mais Valor Que Comprar Empresas no Brasil
A aquisição de empresas é frequentemente celebrada como um sinal de ambição e sucesso corporativo. No entanto, a venda de um negócio, muitas vezes vista com desconfiança, pode, em média, gerar mais valor para os acionistas. Essa assimetria de percepção é notável, especialmente em um cenário de profundas transformações econômicas e tecnológicas no Brasil.
Reformas tributárias, a ascensão da inteligência artificial e a reorganização das cadeias globais de produção exigem uma revisão constante das estratégias empresariais. Nesse contexto, a decisão de onde investir torna-se inseparável da decisão de onde deixar de atuar.
A professora Emilie Feldman, da Wharton School, em seu livro “Divestitures: Creating Value Through Strategy, Structure and Implementation”, destaca essa lacuna na literatura empresarial, que se concentrou por décadas em fusões e aquisições, negligenciando a outra metade crucial da equação: quando e por que vender um ativo. Essa abordagem é fundamental para a gestão de portfólios corporativos, especialmente no Brasil, conforme divulgado em análises recentes do mercado.
A Pergunta Chave: Você Compraria Esse Negócio Hoje?
A lógica tradicional de fusões e aquisições foca em expandir o portfólio. Feldman propõe uma inversão dessa perspectiva: as lideranças devem revisar continuamente os ativos que já possuem. A pergunta crucial é: se esse ativo não fizesse parte da empresa hoje, nós o compraríamos novamente pelo preço de mercado atual?
Quando a resposta é negativa, é provável que o ativo esteja sendo mantido por inércia ou razões históricas, e não por estratégia. Cada negócio dentro de uma organização consome recursos valiosos como capital, talentos e atenção da liderança. Em economias com custo de capital elevado, como a brasileira, manter ativos de baixo potencial significa sacrificar oportunidades de inovação e produtividade.
Desinvestir Bem Gera Mais Valor Que Comprar Mal
O verdadeiro ativo estratégico em um mundo de recursos escassos não é a quantidade de negócios controlados, mas sim a capacidade de alocar capital onde ele gera maior retorno. O crescimento sustentado depende menos de investir mais e mais da disciplina para investir melhor. É essencial entender que nem sempre o pior ativo é o candidato ideal para desinvestimento.
Muitas vezes, um bom negócio pode gerar mais valor nas mãos de outro controlador, que consiga extrair sinergias ou competências que o proprietário atual não consegue. Vender, nesse caso, não é destruição de valor, mas sim uma forma de reciclagem eficiente de capital.
Barreiras Comportamentais e a Importância da Governança
O maior obstáculo aos desinvestimentos raramente é financeiro, mas sim comportamental. Organizações tendem a se apegar a decisões passadas, mesmo quando as circunstâncias mudam. Reconhecer que uma escolha correta ontem pode não ser a melhor hoje exige disciplina estratégica e governança de qualidade.
Empresas que revisam seus portfólios com frequência ganham flexibilidade estratégica, liberando e reciclando capital antes que a necessidade as force a vender. Elas conseguem reposicionar investimentos enquanto ainda possuem opções, ao contrário daquelas que vendem sob pressão, muitas vezes no pior momento.
Desinvestimento e Juros Altos: Uma Combinação Estratégica
Em tempos de juros altos, a disciplina de desinvestimento ganha um motivo adicional. Liberar capital próprio através da venda de ativos permite financiar novos investimentos sem recorrer a dívidas, evitando aumentar a alavancagem da companhia. Isso viabiliza direcionar recursos para oportunidades mais rentáveis, sem depender de financiamento de terceiros, que se torna mais caro nesse cenário.
O debate no Brasil sobre como ampliar o investimento agregado é válido. Contudo, é igualmente importante focar na qualidade da alocação do capital existente. Economias se tornam mais produtivas não apenas ao acumular ativos, mas ao direcionar recursos para onde eles geram maior valor.
A maturidade estratégica de uma empresa pode ser medida menos pela qualidade de suas aquisições e mais pela sua capacidade de realocar capital quando as circunstâncias mudam. Comprar continuará sendo uma competência essencial, mas a pergunta mais reveladora sobre uma companhia é se ela teria a disposição de comprar novamente, pelo preço de hoje, cada um dos negócios que já possui. As melhores empresas se definem pela coragem de vender no momento certo.