Aliados do presidente Lula demonstram insatisfação com a exposição de Janja na campanha, pedindo maior visibilidade para Geraldo Alckmin.
A desvantagem do presidente Lula (PT) na corrida presidencial acirrou o desconforto de petistas e aliados em relação à exposição da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, durante o primeiro turno das eleições. Diante do risco de derrota, interlocutores do presidente iniciaram um processo de autocrítica em reuniões tensas, onde as críticas à atuação de Janja passaram a ser mais abertamente expressas.
A insatisfação ganhou contornos públicos quando a ex-senadora Kátia Abreu, recém-filiada ao PT, foi aplaudida por defender “menos Janja e mais Alckmin” para o segundo turno. A declaração, segundo a Folha, buscava dar mais visibilidade ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), visto como um avalista da responsabilidade fiscal, e também criticou a concentração de poder no PT de São Paulo.
A equipe de Janja, contatada pela reportagem, não se manifestou sobre as críticas, mas informou ao jornal O Globo que a primeira-dama continuará na campanha, com o respaldo de Lula. No entanto, as reuniões internas revelam um sentimento de que o espaço ocupado por Janja pode ter sido excessivo, com sugestões para evitar “louvores evangélicos sobre o tapete vermelho”, em referência a um jingle de inspiração gospel cantado por ela em atos de campanha.
Críticas pontuais e responsabilidade por resultados
Durante as avaliações, surgiram menções veladas ao protagonismo de Janja. Um participante sugeriu o fim de “louvores evangélicos sobre o tapete vermelho”, uma alusão direta ao jingle cantado pela primeira-dama em atos de campanha. Outro membro da executiva do partido ressaltou a necessidade de “romper a bolha” que cerca o presidente, indicando que Lula gosta de estar próximo ao povo.
Um parlamentar, sem citar Janja nominalmente, defendeu maior evidência para Alckmin na campanha, ecoando a opinião de Kátia Abreu. Essas discussões indicam uma busca por estratégias que ampliem o alcance da mensagem do presidente, possivelmente reduzindo a centralidade da primeira-dama em determinados momentos.
Decisões estratégicas sob escrutínio
A influência de Janja em decisões estratégicas da campanha também virou alvo de críticas. Setores petistas a responsabilizam, por exemplo, pelo mau desempenho do marido em Minas Gerais, onde Lula não obteve a vitória esperada sobre Jair Bolsonaro. A primeira-dama teria xingado o deputado Nikolas Ferreira (PL) em um comício pré-eleitoral, o que, segundo alguns aliados, pode ter desagradado o eleitorado do parlamentar.
Outra decisão sob escrutínio é a proibição das apostas online, conhecidas como “bets”. A medida, que se acreditava ser popular, agora é vista por alguns lulistas como algo que afetou negativamente a popularidade de Lula. A ideia de um ato com artistas no Rio de Janeiro, que teria sido iniciativa de Janja, também é criticada, por focar em um público já cativo e não em segmentos eleitorais a serem conquistados.
Protagonismo crescente e reavaliação de estratégia
Janja tem demonstrado um protagonismo crescente na campanha, saindo dos bastidores para ocupar palanques, ganhar destaque na propaganda eleitoral e influenciar a agenda do presidente. Ela passou a discursar em todos os comícios, chegando a repreender Lula em momentos de desatenção. Contudo, a reavaliação pós-primeiro turno sugere uma possível mudança nesse cenário, com aliados observando uma menor exposição da primeira-dama em reuniões estratégicas para o segundo turno.