Entenda a Escalada da Crise no Irã: Protestos Massivos e Repressão Violenta
O Irã vive uma de suas maiores crises políticas e sociais desde 2009, com protestos generalizados que eclodiram no final de 2025 e rapidamente escalaram, transformando-se em um clamor pela renúncia do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. A onda de manifestações, que se espalhou por ao menos 25 das 31 províncias iranianas, segundo a agência AFP, tem sido marcada por forte repressão policial e confrontos violentos.
Inicialmente motivadas por uma grave crise econômica, com a moeda nacional, o rial, perdendo metade de seu valor frente ao dólar e a inflação ultrapassando os 40%, as manifestações ganharam um novo caráter com a violenta resposta do regime. A situação atraiu a atenção internacional, com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçando uma resposta contundente caso mais manifestantes sejam mortos pelas forças de segurança iranianas.
O líder iraniano, por sua vez, classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”, acusando-os de agirem a mando de países estrangeiros, em clara referência aos Estados Unidos. As declarações de Khamenei vieram em meio a um apagão geral da internet e da rede telefônica, imposto na quinta-feira (8), numa tentativa de isolar o país e conter a disseminação de informações sobre os protestos. Conforme informações divulgadas por organizações de direitos humanos e agências de notícias internacionais, a crise já deixou mais de 60 mortos, incluindo membros das forças de segurança, mas o número real de vítimas pode ser significativamente maior devido às restrições de informação.
O Clamor Contra Khamenei e a Crise Econômica que Acendeu o Povo
As manifestações, que começaram no final de dezembro em Teerã, foram inicialmente desencadeadas por uma profunda crise econômica. A desvalorização acentuada do rial iraniano, que perdeu cerca de metade de seu valor em relação ao dólar em 2025, e uma inflação que superou os 40% no último mês do ano, criaram um cenário de desespero para grande parte da população. A situação foi agravada por anos de sanções impostas pelos Estados Unidos, especialmente após a saída de Donald Trump do acordo nuclear iraniano em 2018, e sanções adicionais da ONU em setembro.
O descontentamento popular também é alimentado pela crescente desigualdade social e por denúncias de corrupção dentro do governo. A renúncia do presidente do Banco Central do Irã na segunda-feira (5) evidenciou a instabilidade econômica, com a mídia local apontando políticas recentes de liberalização econômica como um fator na rápida desvalorização da moeda. O rial atingiu, neste mês, sua mínima histórica, intensificando o sentimento de insatisfação generalizada entre os cidadãos comuns.
Ameaças de Trump e a Resposta Firme do Irã em Meio ao Caos
A crise interna no Irã reacendeu as tensões já elevadas entre o país e os Estados Unidos. O presidente americano, Donald Trump, declarou que “não tolerará” mortes de manifestantes pelo regime de Khamenei e prometeu que os EUA “atingirão muito duramente” o Irã caso isso ocorra. Em resposta, o líder supremo iraniano chamou Trump de “arrogante” e acusou o presidente americano de ter as mãos “manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”, em alusão a bombardeios anteriores contra instalações nucleares.
A escalada retórica entre os dois líderes adiciona uma camada de complexidade à já volátil situação. A ameaça de intervenção externa, mesmo que verbal, pode ser utilizada pelo regime iraniano para justificar a repressão interna e desviar o foco das demandas populares por mudanças políticas e econômicas. A comunidade internacional observa com apreensão o desenrolar dos eventos, temendo um aprofundamento da violência e uma desestabilização regional.
Isolamento Digital e o Dia Mais Sangrento dos Protestos
Na quinta-feira (8), em uma medida drástica para conter a disseminação de informações e a organização dos protestos, o governo iraniano ordenou um corte generalizado de internet e da rede telefônica em todo o país. A ONG de vigilância de segurança cibernética Netblocks confirmou o apagão em escala nacional, efetivamente isolando o Irã do resto do mundo. Essa ação visa dificultar a comunicação entre os manifestantes e a divulgação de imagens e relatos sobre a repressão.
A quarta-feira (7) foi registrada como o “dia mais sangrento” da crise, com a morte de 13 manifestantes, de acordo com a organização Iran Human Rights (IHR). Esta mesma organização estima que pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, perderam suas vidas desde o início dos atos, com centenas de feridos e mais de 2 mil detidos. As manifestações atuais são as maiores desde os protestos após a morte de Mahsa Amini em 2022, evidenciando um descontentamento profundo e persistente com o regime teocrático.
O Legado da Revolução Islâmica e a Luta por Liberdade
Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã opera como uma república teocrática, onde o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, detém a autoridade máxima desde 1989. O regime tem sido alvo de críticas constantes por violações de direitos humanos e severas restrições às liberdades sociais, um cenário que tem impulsionado gerações mais jovens a encabeçar diversos protestos nos últimos anos. A luta por maior liberdade e por um sistema político que represente melhor os anseios da população continua sendo o cerne das manifestações em andamento.
Os slogans entoados nas ruas, como “é a batalha final, Pahlavi voltará”, em alusão à dinastia pré-revolucionária, ou “Seyyed Ali será destituído”, em referência direta a Khamenei, demonstram um desejo profundo de mudança e um questionamento direto da legitimidade do atual sistema. A resistência do regime, marcada pela repressão e pelo controle da informação, contrasta com a persistência e a crescente ousadia dos manifestantes, que demandam um futuro diferente para o Irã.