A Prefeitura de Manaus renovou o contrato com a operadora de saúde Hapvida por um valor que mais que dobrou o previsto em licitação, levantando sérias preocupações. O acordo, que deveria custar R$ 45 milhões, saltou para R$ 119 milhões até 2026. Documentos obtidos pela Rede Amazônica apontam para manobras no pregão eletrônico e a inclusão de um aditivo que inflaram o custo.

Inicialmente, a Hapvida propôs R$ 108 milhões. Após uma concorrente oferecer R$ 48 milhões, a Hapvida reduziu seu lance para R$ 45 milhões, garantindo a vitória. Contudo, uma decisão do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) permitiu o retorno do valor para os R$ 108 milhões originais. Em dezembro passado, a prefeitura ainda prorrogou o contrato por mais um ano e autorizou um aditivo de 10%, elevando o total para R$ 119 milhões.

Essa disparada de valores gerou investigações do Ministério Público do Amazonas (MP-AM), que identificou o uso de recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) para cobrir os custos da saúde dos servidores. A Secretaria Municipal de Educação (Semed) transferiu R$ 41,8 milhões para o Fundo do Plano de Saúde dos Servidores Municipais (Funserv–Manausmed), evidenciando uma possível transposição de verbas originalmente destinadas à educação.

Servidores Relatam Deterioração na Qualidade do Atendimento

Enquanto o custo do contrato dispara, relatos de servidores municipais e usuários indicam uma queda significativa na qualidade dos serviços prestados pela Hapvida. Usuários apontam para a troca frequente de profissionais, descontinuidade de terapias e redução no tempo de atendimento, especialmente para casos sensíveis como o de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Uma servidora, que preferiu não se identificar, relatou que o plano não cumpre o previsto em laudos médicos e desrespeita a frequência e carga horária necessárias para o desenvolvimento de sua filha com TEA. Ela também mencionou o descumprimento de decisões judiciais que determinam o atendimento adequado, gerando grande insatisfação.

Insatisfação e Denúncias Contra a Operadora

Representantes de servidores e sindicatos expressam descontentamento com o modelo de atendimento implementado após a substituição da antiga operadora, ManausMed, pela Hapvida. O Sindicato de Professores e Pedagogos de Manaus, através do professor Lambert Melo, destaca a perda da diversidade de opções de atendimento, com os servidores agora dependendo de uma agenda centralizada e exclusiva da Hapvida, resultando em longas esperas por consultas e exames.

O vereador de Manaus, Rodrigo Guedes (Progressistas), também denunciou a deterioração do serviço após a contratação. Ele afirma que o processo foi conduzido de forma direcionada, prejudicando os servidores com reajustes na alíquota descontada em folha e a centralização do atendimento. Guedes classificou a situação como um **golpe nos servidores públicos** e anunciou a intenção de ingressar com ação popular, além de ter acionado o Ministério Público e o Tribunal de Contas.

Procon Registra Centenas de Reclamações

O Instituto de Defesa do Consumidor (Procon-AM) registrou um alto volume de reclamações contra a Hapvida. Foram contabilizadas 178 queixas através de diversos canais, sendo 88 somente em 2024. O departamento de fiscalização analisou 38 denúncias formais contra a operadora, evidenciando um padrão de insatisfação por parte dos usuários do plano de saúde.

Em nota, a Secretaria de Administração e Gestão de Manaus justificou o reajuste como **técnico contratual previsto**, baseado em índices da Agência Nacional de Saúde. No entanto, não comentou o uso de recursos da educação para cobrir gastos de saúde em anos anteriores. O Tribunal de Contas do Estado informou que o caso está em análise interna e que providências já foram adotadas.